Opinião

Velhos, novos e falência moral

Velhos, novos e falência moral

Fruto de políticas (obsessivas) de austeridade tendo como único fito o combate à dívida, a sociedade portuguesa é hoje marcada pelo exponencial aumento de três chagas: desemprego, pobreza e exclusão social. Um quadro assim pode alimentar o recuo de muitos dos índices civilizacionais adquiridos nas últimas décadas e dos quais o país se orgulha. ...

Preocupante, o agravamento das condições de vida dos portugueses não deve no entanto servir de biombo a um outro défice em crescendo: o dos valores morais.

A crise tem acentuado, de facto, uma malsã competitividade em vários núcleos da sociedade, sendo incontestável que o materialismo e a falência do conceito de família e de todas as suas teias de apoio resultam em coquetel explosivo.

Esta Quadra do ano é particularmente exemplificativa. Quer no plano material, apesar da recessão apertar os níveis do consumo, quer nos sintomas de desagregação das famílias.

O (mau) tratamento dado à chamada Terceira Idade é paradigmático.

As horas consumidas no cumprimento de regras num competitivo mercado de trabalho em busca de bens materiais para a sobrevivência justificam uma parte da desatenção e do isolamento a que são votados os velhos. Mas não explicam tudo. E quando se verifica um aumento dos níveis de violência sobre os velhos sob o espetro imaginativo da recolha de vantagens por herança, eleva-se a preocupação sobre a falência desta sociedade. A qual se torna ainda mais iminente perante a verificação de que nas épocas mais dadas às festarolas - como as férias, o Natal ou o Ano Novo - não falta quem despache os velhos pela via do maquiavélico estratagema de os "depositar" nas urgências dos hospitais.

A bancarrota económico-financeira não pressupõe, insiste-se, a obrigação de uma bancarrota dos princípios.

Para se manter ou reforçar posições no chamado mundo civilizado, Portugal está confrontado com a necessidade de protagonizar vários combates. O do apoio e inter- -relacionamento geracional é um deles, apesar de todos os sintomas apontarem na direção errada.

A rarefação do mercado de trabalho é hoje um dos perigos mais assinaláveis à coesão social e impõe pedagogia e prudência. Todo o contrário do que se tem visto....

O caso acabado e recente de como não se lida com o problema deu-o o primeiro-ministro quando provocou no país um tumulto verbal mercê de considerações pouco refletidas e pior fundamentadas ao criticar a existência de pessoas que "recebem reformas e pensões desproporcionadas aos descontos que fizeram". Pior do que a ignorância revelada por Passos Coelho sobre os cálculos do sistema de Segurança Social foi tê-lo feito por ocasião de um congresso da Juventude Social-Democrata. Para fomentar uma estúpida competição geracional não podia ser pior....

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