Opinião

Os sacrifícios servirão para quê?

Os sacrifícios servirão para quê?

Afogado em dívidas e pendente dos credores - embora para alguns seja sempre possível mandá-los lamber sabão... -, o país vive em ambiente irrespirável. Televisões, rádios, a maioria dos jornais não conhecem outro assunto e martelam, martelam, martelam o tema até à exaustão. A loucura teatralizada da Coreia do Norte, os avanços científicos benfeitores ou as filantropias assumidas parecem não existir....

Sim, as preocupações decorrentes da falência são tão legítimas quanto a exposição de fórmulas suscetíveis de fazerem Portugal safar-se do estatuto de protetorado no qual se meteu, alimentado pela irresponsabilidade associada ao crédito fácil e a mania de um certo novo-riquismo. O excesso de foco centrado nas hipóteses de retoma de um caminho não subjugado a credores até pode perceber-se, embora em esforço; já é duvidosa a birra sistemática dos protagonistas político-partidários, incapazes de se entenderem no essencial para um pacto de regime, substituindo-o por meros jogos de poder....

O imediatismo da discussão sobre os remédios para a atual crise - também de regime - ignora o essencial: mais assim ou mais assado, os sacrifícios pedidos aos portugueses servirão para quê?

Apesar de toda a taxa de esforço e de austeridade em curso, os atuais indicadores macroeconómicos fazem desfalecer um santo. Não é coisa pouca, aceite-se. Mas se por obra e graça de métodos diferentes (ou pós de perlimpimpim), o país sair da espiral recessiva, for capaz de safar-se da troika e conseguir voltar a arfar por si mesmo, ao ponto de se poder financiar nos mercados sem ser levado pela trela, qual a estratégia existente (e explicada) para um futuro sem repetição de solavancos?

Eis o ponto.

Milhões para a frente ou milhões para trás, todo o debate em curso tem por autoria marinheiros especialistas em cabotagem. Tudo quanto é apresentado assemelha-se a navegação à vista. O país não dispõe, na verdade, de um plano estratégico construído por pilotos de alto-mar, de um só desígnio pelo qual sejam os portugueses convencidos a fazer sacrifícios. Para lá da conversa fiada do costume, a propósito do Mar, por exemplo, mesmo quando há uma pequeníssima brecha por onde se abre uma hipótese de financiar mudanças, não se observa um projeto sustentado - e assim será, como se paga para ver, no caso da safa de viabilidade de algo para o país decorrente do próximo Quadro Comunitário de Apoio.

Todo o esforço para suplantar as atuais dificuldades será inglório sem a existência de um plano estratégico para o pós-crise - bem fundamentado e melhor explicado.

O país precisa urgentemente de quem o pense para lá dos constrangimentos atuais e das lutas político-partidárias.

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