Opinião

Os pagadores de promessas

Os pagadores de promessas

1. "Com o PSD no Governo não será construído nenhum novo aeroporto internacional enquanto houver crianças de três anos à espera para serem operadas", "nem será construída uma nova ponte sobre o Tejo enquanto os reformados continuarem a receber pensões de miséria" (Durão Barroso na Convenção Nacional do PSD um mês antes das eleições legislativas de 2002, prometendo cortes significativos no investimento público).

Em outubro desse ano, na cimeira luso-espanhola de Valência e depois, em novembro de 2003, na da Figueira da Foz, Durão Barroso e José Maria Aznar aprovaram as ligações de TGV Lisboa/Madrid e Porto/Vigo até 2010, Lisboa/Porto até 2013, e Aveiro/Salamanca até 2015.

2. "Nós não vamos aumentar os impostos porque essa é a receita errada" (José Sócrates, entrevista à RTP, abril 2005). No mês seguinte anunciou o aumento do IVA de 19% para 21%, o agravamento da tributação do tabaco e dos produtos petrolíferos e a criação de um escalão de 42% no IRS para rendimentos mais elevados.

3. "Nós não podemos aumentar esta receita aumentando mais impostos, porque de cada vez que tivemos um problema de finanças públicas em Portugal nos últimos anos, a receita foi sempre a mesma, foi pôr as famílias e as empresas a pagar mais impostos". "O Estado tem que dar o exemplo, nós não devemos aumentar os impostos" (Passos Coelho, entrevista ao Económico TV, fevereiro 2010).

"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro" (Passos Coelho, fórum de discussão "Mais Sociedade", 30 de abril 2011).

"Aquilo que o primeiro-ministro [J. Sócrates] nos acusou foi de querer acabar com o IVA intermédio para a restauração, que é absolutamente falso" (Passos Coelho, debate eleitoral na televisão, 10 de maio de 2011).

Temos bem presente que os últimos quatro anos foram o contrário destas promessas.

Reconheço, por experiência própria, que muitas vezes temos que fazer afirmações baseados em informação incompleta. Afirmações que acabam por não se confirmarem face às contingências que o futuro sempre nos reserva. Por isso será difícil dizer que os autores daquelas promessas mentiram deliberadamente aos eleitores. Mas uma coisa é certa, avaliaram mal a situação e assumiram compromissos que não podiam cumprir. Episódios como estes impõem um custo à credibilidade de quem promete e desmotiva os eleitores.

Com o fim das férias começa um novo ciclo de uma campanha eleitoral há muito iniciada. Julgo oportuno recordar aqui o alerta bem conhecido de Santaynana: "Aqueles que não conseguem lembrar-se dos erros do passado estão condenados a repeti-los".

*ECONOMISTA