Opinião

A Avenida

No 25 de abril, estive e sempre estarei de cravo vermelho ao peito. A data da Revolução, para a qual, há 44 anos, dei o meu ínfimo contributo pessoal, é por mim comemorada, desde então, com uma sinceridade que não tem par com outros eventos a que me associo. Vivi-a em oito países, às vezes em família, outras com amigos, algumas vezes com cerimónias de permeio.

Fui, em algumas ocasiões, sempre por dever de ofício, à cerimónia na Assembleia da República. Nesses momentos, para além da observação coletiva de quem levava ou não um cravo ao peito, assisti à cansativa sucessão de discursos políticos e partidários, que, invariável e oportunisticamente, utilizavam a comemoração para tratar da conjuntura do momento.

Aquilo que poderia ser um espaço de proclamação de elegias à liberdade conquistada naquela data acabava por se transformar numa arena de severo combate político, com as diversas leituras de "abril" a servirem de arma de arremesso, de forma quase sempre pouco subliminar.

Com sinceridade, ninguém acreditará que essa maratona declaratória contribuía, minimamente, para levar as virtualidades da Revolução às novas gerações, para nelas ajudar a construir o culto desse momento fundacional da nossa democracia. Nos últimos dois anos, parece que este vício terá sido um pouco corrigido.

Depois, há a Avenida. Do Marquês ao Rossio, um certo país político-militar faz à tarde a sua festa. De início, parecia que essa romaria laica poderia vir a ter o caráter daquilo que foi o primeiro 1° de Maio: uma festa plural, em que a bandeira comum fosse vermelha, claro, mas com o verde da nossa República.

Cedo se percebeu que não ia ser assim, que uma certa lateralização ideológica ia prevalecer. E a Avenida logo passou a uma manifestação com bandeiras sectárias e slogans, uma espécie de comício ambulante, onde certas forças políticas, com os seus apêndices multiplicadores de imagem, ganharam um espaço claramente desproporcionado face àquilo que a vontade do povo regularmente expressa nas urnas.

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Comemorar o 25 de Abril, celebrar essa magnífica Revolução que, por uma vez, quase que fez o milagre impossível de unir o país, deveria passar por uma despartidarização e consubstanciar-se na organização de festas populares - com música, com juventude, com alegria. E sem discursos, sem desfiles políticos, sem slogans. Como, em França se faz com o "14 juillet". Ah! Mas sempre, claro, com muitos cravos.

É que, no 25 de abril, estive e sempre estarei de cravo vermelho ao peito.

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