Opinião

A responsabilização política

A responsabilização política

Uma entrevista do presidente da República, embora na pele de candidato à reeleição, deitou mais uma acha na fogueira posta a arder sob o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Há já quem faça contas ao tempo que António Costa o manterá no Governo.

Há muito que se notou que Cabrita é um mal-amado da comunicação social, que nunca pareceu simpatizar com o estilo do ministro, que admito possa ser lido como algo pomposo, quiçá arrogante. Cabrita não promove a captura charmosa dos média, mostrando-se sempre muito afirmativo e distante, projetando a ideia de que tem poucas dúvidas nos caminhos que segue. Acresce que as ironias políticas, que às vezes ensaia publicamente, não parece fazerem parte sua especialidade, embora se diga que, em privado, é um homem com sentido de humor.

Porque governa em minoria, mas também por estilo próprio, António Costa rodeia-se de pessoas sobre as quais possa exercer forte autoridade política e, em muitos casos, em quem tem grande confiança pessoal. É sabido que Cabrita faz parte, há muito, do círculo próximo do primeiro-ministro. No plano operativo, é o que os anglo-saxónicos chamam um "trouble shooter", em português corrente, um "carregador de pianos", disponível para tarefas difíceis. Quem o conhece sabe que é um político com elevado sentido de serviço público, de uma integridade à prova de bala.

O ministro deve sair agora do Governo? É vulgar dar-se como exemplo de uma atitude correta, em matéria de responsabilização política, o caso de Jorge Coelho, que se demitiu de ministro das Obras Públicas depois da queda da ponte de Entre-os-Rios. Devo dizer que, tendo achado de grande dignidade esse gesto, sempre o vi como excessivo.

Um ministro não é responsável pelo facto de um seu serviço sob a sua tutela ter falhado, a menos que se prove que já tinha sido alertado para a possível ocorrência desse tipo de falhas e, por incúria, não tivesse atuado. Ou que não tivesse logo tomado as atitudes apropriadas, na decorrência dos factos. Salvo no tocante ao prolongamento excessivo no cargo da diretora do SEF, o que pode ser levado à conta de ter optado por não querer desestabilizar o serviço, no complexo tempo da pandemia que então se vivia, não me parece, como simples cidadão, que Eduardo Cabrita tenha cometido qualquer erro grave, por ação ou omissão. Sei que vou contra o ar do tempo, mas afastá-lo do Governo, podendo apaziguar algumas consciências e confortar demagogicamente a "vox populi", não ajuda a resolver rigorosamente nada.

Embaixador

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