Uma segunda opinião

Conversas à esquerda

António Costa quer que este Orçamento, a exemplo do que tem vindo a passar-se desde 2016, seja viabilizado à esquerda. Se a entronização do governo minoritário do PS foi garantida pelos partidos à sua esquerda, parece natural, em princípio, que os diplomas de receitas e gastos do Estado sigam a mesma lógica.

Recorde-se que foram os partidos que suportaram a geringonça, no primeiro mandato, que recusaram renovar o compromisso escrito na base da qual o PS governou. Presume-se que o terão feito por forma a ensaiarem um novo caminho, depois do saldo da anterior experiência, não obstante ter contribuído para manter a direita fora do poder, ter sido maioritariamente "faturado" pelo PS.

A necessidade do PCP e do Bloco sublinharem ao eleitorado que as medidas mais progressistas decididas pelo governo PS (porque o governo continua a ser PS, convém não esquecer) se devem à sua barganha negocial converte os orçamentos num "happening" anual. Além de que esses partidos não rivalizam apenas com os socialistas: disputam também entre si, o que os obriga a uma esforçada coreografia verbal e mediática.

Para António Costa, o processo deve ser muito difícil de gerir, o que faz com que, por vezes, lhe escapem frases de alguma irritação, onde se nota uma maior contemporização com o PCP e uma menor paciência com o Bloco. Em abono da verdade, tem alguma razão, neste sublinhar de diferenças: o PCP é reconhecidamente mais fiável.

Passados estes anos de cooptação dos partidos mais à esquerda para a esfera da influência na governação, parece evidente haver dois efeitos.

O primeiro tem a ver com a própria matriz funcional do regime. Ao trazer a esquerda da esquerda para um diálogo com consequências nas políticas de Estado, mantendo sempre bem firmes os compromissos essenciais no plano europeu - este ano conjunturalmente flexibilizados pelas decisões tomadas durante a pandemia - pode dizer-se que se processou uma subliminar aculturação desse setor a uma prática de compromisso e de realismo, arrancando-o da postura de reivindicação inconsequente que marcava o seu discurso. E a esse efeito nos partidos corresponderá uma evolução nos próprios eleitorados. O próprio OS, contudo, não ficou imune a essa prática. Ao tomar como suas medidas a que a pressão dos parceiros à esquerda o foi conduzindo, o PS consumou um processo de evolução programática interna, assim acalmando, até ver, um seu setor que sempre viveu mal com derivas "centristas", como as que a liderança de Seguro parecia preconizar.

*Embaixador

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