Uma segunda opinião

Deixei de sorrir

Se a América, em ano de eleição presidencial, prometia já um tempo fascinante de observação, a pandemia deu uma inesperada ajuda a um teatro político que, com uma figura como Trump em cena, acabaria sempre por ter características ímpares.

Vou confessar uma fraqueza: às vezes, ao longo destes últimos quatro anos, dei comigo numa atitude de divertida atenção à "performance" daquele que, não tenho a menor dúvida, a História virá a consagrar como o mais irresponsável presidente que alguma vez saiu em rifa à América.

Quando o via na televisão, ao mesmo tempo que ficava assustado com a tragédia de ter uma personalidade deste jaez à frente de destinos que condicionam os nossos, raramente conseguia não esboçar um sorriso.

Aquela figura caricata, que parece sempre estar aos ombros de si próprio, onde quer que esteja, que se acha "o máximo" e não mede o ridículo de afirmá-lo, protagoniza um arremedo de presidente que tinha o condão de, ao irritar-me, simultaneamente me divertir.

Ao vê-lo fazer aqueles "carões", com gestos de afirmação machista, a sua pulsão por um exercício quase físico de autoridade, sentia estar a assistir a um "show" que, nem por ser de série B em termos políticos, deixava de ser curioso observar. Em alguns momentos, tinha a sensação de que Trump mimava as suas próprias imitações, numa emulação do "boneco" de Alec Baldwin.

Trump é autor do "script" para o seu monólogo de poder, carimba um registo que todos reconhecem e esquissa, a traço sempre grosso, o retrato que, a todo o momento, projeta de si mesmo. Trump é transparente: com as suas mentiras e exageros, só engana quem se dispõe a ser enganado.

O que mais impressiona é ele estar visivelmente sozinho em toda a encenação. É talvez a orgulhosa consciência dessa solidão que lhe potencia a força anímica para sustentar o espetáculo. Ele sabe que consegue obrigar-nos a assistir, como espectadores impotentes, àquela peça porque, à partida, sabe ser titular de um poder que o converte no homem conjunturalmente mais poderoso do Mundo.

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Na noite de segunda-feira, porém, parei de sorrir, por completo. Quando vi Trump chegar à Casa Branca e tirar, quase com violência, a máscara, metê-la no bolso com um ar de desprezo, num gesto - vou usar a palavra, porque é essa - criminoso, enviando um sinal para a morte a muitos seguidores, pensei que não tenho, afinal, o direito a usufruir de um olhar lúdico sobre uma personagem que, na sua irresponsabilidade arrogante, encarna o pior que a política nos pode trazer de maléfico.

*Embaixador

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