Opinião

Falando de diversidade

Falando de diversidade

Com ironia, costuma dizer-se que alguma justiça, em matéria de paridade de género, apenas existirá quando mulheres incompetentes - leram bem, incompetentes - conseguirem chegar a lugares de elevada responsabilidade.

É que tendo havido, desde sempre, homens desqualificados a ocupar esse tipo de cargos, ver ascender mulheres capazes a essas posições seria apenas um reconhecimento mínimo. Mas, como sabemos, mesmo este passo está muito longe de concluído.

Alterar o "statu quo" em matéria de representação, de género ou de minorias, é um trabalho de longo curso. Durante muito tempo, vi algum paternalismo nas ações afirmativas em matéria de paridade ou na política de quotas. Hoje, estou convicto de que, nesse domínio, um certo tipo de imposição é essencial.

Há dias, a SIC colocou um locutor negro a apresentar um seu jornal. Espero que seja um bom locutor. É que, se acaso o não fosse, cairia o Carmo e a Trindade, porque se iria dizer que tinha sido escolhido por cedência ao "politicamente correto". É assim que as coisas estão, gostemos ou não.

O novo locutor da SIC não foi o primeiro negro a ler um noticiário na televisão portuguesa. Com a pele mais ou menos escura, outras figuras, homens e mulheres, surgiram, desde há anos, nas nossas televisões. Quase todos, por sinal, bons profissionais. Mas foram sempre muito poucos.

Para um país com a nossa diversidade, temos um défice muito evidente de etnias, diferentes da branca, em várias áreas da nossa vida pública: da política à diplomacia, das Forças Armadas à justiça, dos média a lugares elevados da vida empresarial. Ah! E não nos deixemos iludir pela presença de negros na música e no desporto, sabendo também que, para esta "guerra", não contam as figuras de origem indiana.

Não acho que tudo isto se deva apenas ao racismo, embora reconhecendo a óbvia presença deste na sociedade portuguesa. O racismo existiu, existe e existirá, as mais das vezes escondido, mas ressurgindo a espaços, tornando-se mais perigoso se legitimado por vozes com estatuto democrático.

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As etnias não-brancas de origem africana, muito pelo modo como a nossa descolonização se processou, foram condenadas a uma exclusão económica que tem dificultado a sua plena afirmação social. Mas não nos iludamos: no dia em que essa afirmação vier a ter lugar, ela acabará por funcionar como uma alavanca para novas atitudes de sectarismo racista.

Esta é uma das lutas, talvez eternas, que não podemos perder, se quisermos garantir a sanidade da nossa vida cívica democrática.

Embaixador

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