Uma segunda opinião

A crise dos rituais

Imagino que poucos leitores terão tido paciência para acompanhar, na madrugada de segunda para terça-feira, a singular coreografia da cerimónia que consagrou o encerramento do Parlamento britânico, imposto pelo primeiro-ministro Boris Johnson.

Durante o desenrolar do protocolo daquela cerimónia, houve um momento que me pareceu revelador: à chegada do representante da Câmara dos Lordes aos Comuns, em farda própria e em passo muito estudado, foram visíveis e audíveis risotas e gargalhadas por parte de muitos parlamentares, numa cena impensável há alguns anos.

Ficou a sensação de que todo aquele gongórico aparato, feito de algum exagero no sublinhar dos rituais, pode estar já menos conforme com o "ar do tempo". Mais do que isso: resultou a ideia de que existe um setor da classe política - seguramente correspondente a áreas homólogas na opinião pública - que já não está disposto a respeitar alguma dessa liturgia.

Minutos depois, quando os Comuns se deslocaram em procissão até aos Lordes, e nessa câmara foi lido, em nome da rainha, um discurso sem a menor substância relevante, preparado pelo Governo, com a soberana a ser, no meio de tudo aquilo, um mero "carimbo" formal, era visível, na cara de todos os presentes a esse "teatro", um sentimento de alguma distância face à "peça" em cena.

Os rituais não existem por si próprios: consagram um entendimento coletivo que serve de esqueleto formal às instituições. Todos eles, se olhados singularmente, podem quase sempre ser lidos numa perspetiva ridícula. O que os sustenta, o que lhes está subjacente, é o respeito às instituições que encarnam. Quando alguém se ri de um ritual, ri-se da própria instituição.

Não quero, com esta leitura, deixar a ideia de que a monarquia britânica está em inevitável crise. Mas parece-me evidente que a circunstância de, sem qualquer escândalo, a sua liturgia começar a ser desrespeitada é um sinal claro de que as coisas já não são o que eram. E talvez importe perceber porquê.

O Mundo parece surpreendido com o facto do fundamentalismo antieuropeu poder estar a abalar um sistema democrático que era tido por exemplar. É, aliás, sintomático que seja um partido dito conservador a titular essa mesma agressão, de que a insólita suspensão do Parlamento é o ato mais evidente. Ora isso não pode deixar de ter consequências no modo como muitos britânicos passarão olhar, no futuro, as suas instituições. A monarquia, e a sua provada irrelevância neste grave contexto, pode vir a sofrer bastante com isso.

Embaixador