Opinião

Agredidas e esquecidas

Agredidas e esquecidas

É assim na violência doméstica como numa miríade de assuntos que absorvem, recorrentemente, as luzes no palco mediático. Sempre que somos sacudidos por um crime passional, acordamos do marasmo.

Durante dias, subimos gradualmente na escala de intensidade, até atingirmos o cume da montanha da autocomiseração. Proliferam debates, entrevistas, alinham-se estatísticas acabadinhas de reunir, agitam-se bandeiras eleitorais, lançam-se petições, expiam-se os pecados do costume. Rasgam-se vestes. Mas depois tudo passa. E a urgência de respostas dissipa-se tal e qual um nevoeiro matinal.

Podemos culpar a natureza humana, ou até a portugalidade da natureza humana, mas devemos, sobretudo, lamentar que a inércia coletiva não esteja a produzir efeitos na única coisa que não muda: a essência do problema. Continuar a haver agressores e vítimas. É por isso que o trabalho silencioso e integrado que se estende no tempo é tão decisivo nesta área. As mulheres são "alvos" 12 meses por ano e não apenas quando uma é morta a tiro em frente aos filhos. É na soma dos pequenos esforços que se mitigam os efeitos desta mancha dominante. Na educação, no acompanhamento, na proteção.

Ora, quando falha algo tão simples quanto a disponibilização, por parte das autarquias, de uma casa para mulheres vítimas de violência doméstica, por aparente desinteresse e desinformação, dá-nos vontade de perguntar: mas que raio de noção de prioridade têm metade dos municípios de um país onde, em média, morre uma mulher por semana às mãos de um agressor? Como é que se explica às 224 vítimas que, no ano passado, pediram uma habitação para refazer a sua vida e a dos filhos e ficaram esquecidas? E, cúmulo do espanto, como é que andamos a marcar passo há sete anos? Estarão estas mulheres desvalidas condenadas a ser vítimas permanentes desta outra forma de agressão?

Diretor-adjunto