Opinião

Agustina

Agustina Bessa-Luís vive hoje os dias afastada do mundo, sob uma doença incapacitante e irreversível. Dela fica uma obra notável, que lhe concede um lugar cimeiro, entre os prosadores nacionais contemporâneos.

Ao seu conservadorismo político, que a conduziu a atitudes e opções que algumas vezes a distanciaram de muitos dos seus pares, somou-se também o orgulho numa afirmada condição nortenha, que marca a sua escrita e o imaginário que a suporta. Agustina é também alguém que conseguiu fugir à banalidade, ao cultivo de grupos e capelinhas, sempre totalmente senhora de si mesma.

Não sendo um fã incondicional da sua obra, reconheço-lhe uma grandeza rara. É feita de uma escrita rica, inteligente e culta, capaz de inesperadas ousadias e, deliberadamente, com um rigor moral que sempre pretendeu sem concessões, mesmo que, pelo meio, possam emergir algumas contradições, nada que seja incomum em pessoas com toques geniais.

Há dias, caiu-me nas mãos uma recente biografia de Agustina, de Isabel Rio Novo, intitulada "O Poço e a Estrada". É uma obra muito interessante, tão completa quanto lhe foi possível fazê-la sem o apoio dos familiares da escritora. Um trabalho pelo qual perpassa uma admiração genuína pela autora, o que não impede um rigor de execução e metodologia.

Ao ler o livro, veio-me à memória a única conversa que tive com Agustina, num almoço organizado no Rio de Janeiro, em 2005, depois de, nesse dia, ter sido entregue o prémio Camões a Lygia Fagundes Telles. Fiquei sentado entre as duas, tendo colhido a sensação de que ambas viviam em mundos literários tão distintos que isso afetava o apreço estético entre si. Mas admito que essa possa ter sido uma perceção errada.

Lembro-me de ter puxado a conversa para o trabalho de complementaridade entre a obra da escritora e o cinema de Manoel de Oliveira. Para minha surpresa, Agustina, que acabava de me conhecer, fez um requisitório de queixas sobre o cineasta, as dificuldades em trabalharem em conjunto, os "abusos" de Oliveira na utilização de alguns dos seus textos. Ao ler um dos capítulos da biografia, percebi agora melhor o que Agustina me disse naquela conversa.

Nessa noite, fui jantar com o escritor Hélder Macedo, que estava de passagem pelo Rio. No final, ao nos cruzarmos com Agustina no hall de um hotel, Hélder cumprimentou-a e, delicado, comentou: "A Agustina é uma pessoa fantástica: consegue não ter inimigos". Ela, divertida, retorquiu: "Pois isso! Não tenho, mas faço-os!" E deu uma bela gargalhada.

*EMBAIXADOR

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