Opinião

O almoço das quintas

"Não queres responder àquele cronista que há dias te criticou num jornal?", perguntava-me um amigo, no almoço das quintas, quando eu confessava hesitar quanto ao assunto a abordar nesta crónica. Respondi que não: quem escolhe os meus interlocutores sou eu, não o contrário. Em especial, quando as pessoas estão de evidente má-fé, treslendo o que escrevi, como foi o caso. "Talvez valha então a pena falares das trapalhadas do Benfica!", alvitrou outro. A ideia nem era má, mas o que é que alguém pode dizer sobre o assunto, sem se pensar logo que a opinião está manchada por clubite? A única coisa que sei, de ciência certa, é que vamos ter uma novela para vários anos, com recursos e contradições judiciais. No final, até aposto!, a montanha vai parir um rato ou um bode expiatório. Não, não vou falar de futebóis, muito menos das eleições de amanhã, no meu Sporting. Outro conviva deu então uma nova dica: "E se comentasses as sondagens que saíram?". Escrever sobre o tombo do Bloco, pelo efeito Robles, ou de como o PS ainda fica longe da maioria absoluta? "E, de caminho, anotavas que agora já não é a água que vai pelo rio abaixo, mas que é o Rio que vai por água abaixo...", sorriu o meu parceiro do lado, gozando a "trouvaille". Não, com as eleições ainda longe, deixo isso para os exegetas televisivos.

O almoço continuava e eu continuava sem tema. Isto de regressar de férias acarreta sempre um certo torpor, porque a adrenalina ainda não atingiu os patamares necessários. E, embora possa parecer o contrário, não sou um "tudólogo", cuido sempre em só escrever sobre aquilo em que julgo poder acrescentar alguma coisa: "Ora aí está! Podes escrever sobre as eleições brasileiras e explicar o que é que o Lula afinal pretende com a sua tática de recursos". Como se eu soubesse! A única explicação é que está a levar a vitimização tão longe quanto possível, para que a emotividade nos apoiantes se transfira, no fim, para a candidatura de Haddad. Mas já escrevi isto algures! "E o livro do tipo do Watergate sobre o Trump, com o escândalo do artigo anónimo no "New York Times"?" Não, quero ler o livro antes. Foi então que alguém decretou: "O que eu te queria ver era a falar sobre o Marcelo, sobre as selfies, sobre os banhos de rio, aquela "Corte na Aldeia"! Mas sobre isso, é o falas! Vocês têm todos um respeitinho reverencial pelo homem". Não comentei, nem para lhe dizer que me tinha dado uma excelente ideia, para a semana. E foi assim que se passou (ou não) o meu almoço das quintas.

*EMBAIXADOR