Opinião

Vamos a contas

Este não foi um ano fácil para o governo, em especial para António Costa, sendo que o primeiro mostra, a cada dia, ser um quase heterónimo do segundo. A tragédia dos incêndios, e bastante menos a comédia de Tancos, acabou com o estado de graça mas ficou longe de desgraçar o executivo. O otimismo abrandou, mas não afetou a economia, soprada pelas exportações, pelo turismo nas ruas, com ambiente externo e BCE a ajudarem, pelo menos até ver. Centeno, com visível gosto, atou as mãos a si mesmo no Eurogrupo em matéria de défice, embora isso não deixasse de ter consequências nervosas no equilíbrio interno da geringonça. Empochadas as recuperações salariais, PCP e Bloco, percebendo que algumas margens orçamentais afinal existem e só não são usadas porque é preciso edulcorar a imagem do novo bom aluno europeu (que agora até já tem um sorridente retrato), fazem a coreografia vocal da pré-rotura, mas não passam a soleira de uma crise, cujo efeito de "boomerang" temem. O Bloco é entretido com notas emblemáticas e alguns fogachos legislativos fraturantes, que, aliás, ajudam o PS a sustentar ideologicamente a sua própria ala que dele está mais próxima. No seio dos comunistas, António Costa bem pode acender uma vela a S. Jerónimo, porque o que depois dele virá saudoso aliado dele fará. No meio, o presidente preside, numa filosofia de ação que fica cada dia mais clara e que, no essencial, se pode resumir assim: estar ao lado do que estiver a correr bem, nada fazendo para que algo corra mal e depois logo se verá. E não é que me ia esquecendo da oposição? No CDS, a novidade passou, o discurso é errático, umas vezes mais liberal, outras ultramontano, já a roçar terrenos estranhos. No PSD vive-se um ambiente shakespeareano revisitado por Gervásio Lobato, com boa vontade, por Feydeau. Há por ali dois partidos. A abada eleitoral autárquica afastou Passos Coelho, a província ajudou a eleger Rio mas este não pacificou as hostes, onde a aldeia de Astérix (que tem um incendiário Obélix e tudo!) acantonada no grupo parlamentar vive num sebastianismo que, cada vez mais me convenço, acabará por fazer voltar o governante preferido da troika. Vão tentar apear Rio até ao final do ano, temendo a "limpeza de balneário" que este fará em S. Bento. Não sei o que o PS deva temer mais: Rio pode não ter muito jeito, mas exala genuinidade e sentido de Estado, enquanto Passos é um agregador automático da geringonça. Por mim, não tenho dúvidas: António Costa é um excelente primeiro-ministro. Ponto.

*EMBAIXADOR