Opinião

Brok ou a outra Europa

Brok ou a outra Europa

Começou uma nova legislatura do Parlamento Europeu. Da bancada dos conservadores alemães da CDU não faz parte Elmar Brok. Estava lá desde 1980 (não, não leu mal), há 39 anos. O antigo líder alemão, Helmut Kohl, que o adorava, dizia que Brok só tinha tido três tempos na vida: nascer, casar e ser deputado europeu.

Cruzei-me com Brok, pela primeira vez, numa tasca em Taormina, na Sicília, em inícios de 1995. Ambos tínhamos por ali ido ao lançamento do "grupo de reflexão", criado para rever o tratado de Maastricht: ele pelo Parlamento Europeu, eu como "alternante" de André Gonçalves Pereira, que representava Portugal.

Brok era, e é, um alemão grande e gordo, de bigode farfalhudo, à época um viciado do charuto, mesmo nas reuniões. Ah! e um bom copo e melhor garfo. Entre cerveja e grappa, tornámo-nos, nessa noite, bons amigos. Até hoje.

Por dois períodos, Elmar Brok foi presidente da Importante Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu. Mas o seu conhecimento das questões institucionais era lendário. Começou por fazer par com Elisabette Guigou na negociação dos tratados. Na feroz língua dos corredores europeus, eram conhecidos como "a bela e o monstro"... Portugal foi dos países que favoreceram a associação do Parlamento aos trabalhos de reforma institucional: revisão de Maastricht, que conduziu ao tratado de Amesterdão, e, depois, o tratado de Nice. Brok nunca esqueceu isso e, em 2000, muito nos ajudou a superar algumas dificuldades.

Em conferências e seminários, para alguns dos quais fui convidado por sua sugestão, não obstante o nosso diferente alinhamento político, tenho encontrado Brok por essa Europa e outros lugares do Mundo. Raramente conheci alguém tão sinceramente europeísta, no sentido de ver a Europa como um projeto solidário. É um homem de convicções, mas também de palavra: diz o que pensa e faz o que diz.

Nos últimos anos, a CDU alemã e o PPE europeu a que se ligara mudaram muito de natureza. O primeiro pela declinante força de Angela Merkel, o segundo pela "realpolitik" que permitiu que a obsessão com o poder nas instituições tivesse obrigado ao convívio, na mesma família política, com figuras "sulfurosas" do quilate de Orbán e quejandos. Esta já não é a Europa de Elmar Brok, tributária dos valores originários da democracia-cristã que, com a social-democracia, criou o magnífico projeto que deu prosperidade, paz e esperança ao continente.

Que dirá o meu amigo Elmar Brok das escolhas ontem feitas para as instituições, agora já sem ele por lá?

*Embaixador