Uma segunda opinião

Confiança

Temos visto diversas leituras sobre a crise de legitimidade das instituições, com impacto na emergência dos populismos e no abalo dos modelos tradicionais de representação política. Só o tempo nos ajudará a perceber que conjugação astral se formou que trouxe ao mundo, quase simultaneamente, Trump e Bolsonaro, por um lado, Salvini e Orbán, por outro, que coloca Marine Le Pen na soleira do poder, que dá à extrema-direita alemã inédita representação política. Foi a crise financeira, foram os efeitos nefastos da globalização, é a quebra de valores, a relativização da verdade?

Alguns, crentes nos ciclos da História, dirão que não há nada de novo, que o fascismo, o "poujadisme" e outros fenómenos congéneres, assentes no desespero pontual e na personalização da esperança, tiveram, noutros tempos, consequências similares. Pode ser que assim seja, mas o determinismo fatalista, além de não explicar porque tudo surgiu quase ao mesmo tempo, ajuda-nos pouco a poder intervir de modo eficaz sobre a realidade. E esse é o verdadeiro objetivo da ação política democrática.

Num raciocínio simples, podemos afirmar que a estabilidade dos sistemas políticos existe quando os cidadãos sentem confiança em que as escolhas que fazem com o seu voto têm consequências concretas na melhoria da sua vida ou, pelo menos, na preservação daquilo que consideram ser-lhes essencial. Por isso, quando as alternativas de poder são muito próximas entre si, em termos de soluções, os cidadãos podem sentir-se tentados a alhearem-se da atividade cívica ou, em caso de desagrado profundo, a enveredarem por formas de expressão à margem do sistema, do terrorismo aos "coletes amarelos", medidas as devidas diferenças.

A chave da atividade política parece ser a confiança. Elegemos alguém porque investimos a nossa esperança em que essa pessoa, ou esse partido, levará à prática aquilo que nos disse ir fazer se acaso lhe déssemos a oportunidade de chegar ao poder. O incumprimento das promessas, a confissão da impotência para mudar a realidade ou, no limite, o desdizer do proclamado, com mais ou menos cinismo à mistura, não afetam apenas a pessoa em quem havíamos confiado mas repercute-se no sistema político em geral. "São todos iguais" é o que se mais houve, nos intervalos do exercício de alguma esperança, depois desiludida.

Num tempo de eleições, seria importante que esta simples verdade fosse refletida por quem pretende o nosso voto. As coisas, às vezes, são bem menos sofisticadas do que parecem.

*Embaixador