Opinião

Os medos da Europa

Há dias, ao selecionar livros para entregar a uma biblioteca, dei-me conta de que começava a dispensar dezenas de volumes sobre questões europeias.

Tendo encerrado anos de experiência diplomática, e depois académica, a utilidade daqueles livros tinha desaparecido. Por ali estavam coisas desde os primórdios a tempos mais recentes da construção europeia. Alguns desses textos, na sua época, foram tidos como "definitivos", pelo que, se houvesse tempo, teria graça serem comparados com a realidade superveniente. Mas não há tempo.

A Europa integrada é um ser mutante. Vai-se adaptando e procurando encontrar medidas capazes de protegerem os seus interesses, mas apenas pode fazê-lo quando constata ter condições para as consensualizar, o que se tem revelado cada vez mais difícil. Tem uma evolução não uniforme, aos "saltos" e por ciclos. Por isso, quando se fala do projeto integrador europeu, estamos, ano após ano, a referir-nos a coisas que vão sendo sempre diferentes.

Do mesmo modo, as ambições iniciais nada têm a ver com aquilo que os estados- -membros querem da atual União Europeia - e é hoje muito claro que nem todos querem a mesma coisa e, em certos casos, querem mesmo coisas que, não sendo à partida opostas, acabam por se opor. O aumento do corpo de políticas e da cobertura geográfica, esta com uma imensa diversidade introduzida, desenha uma realidade que torna o processo decisório muito mais complexo.

A experiência provou que, ao lado do grande catalisador de opiniões que foi o seu inegável sucesso como projeto de paz e de desenvolvimento, os temores - isso mesmo, os medos - tiveram um papel não despiciendo na construção europeia, pela positiva e pela negativa.

Desde os receios que fundaram a Guerra Fria até às dúvidas traumáticas que se instalaram aquando da crise financeira, passando pelas tempestades de opinião criadas em torno do terrorismo, mas também dos debates sobre refugiados e emigrantes, tudo mostra que, sempre de modo não linear, a Europa reage motivada por ciclos de temores. Foram esses temores que levaram os britânicos ao Brexit, foi o medo do Brexit que levou os restantes 27 a criarem uma eficaz frente negocial face a Londres.

Nos últimos dias, através da força motriz que, mesmo com altos e baixos, sempre foi o eixo franco-alemão, terá ficado gizada uma possível resposta aos efeitos devastadores da pandemia, num tempo político global que já era de extrema complexidade. Uma vez mais, a Europa parece ter acordado à beira do precipício.

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*Embaixador

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