Uma segunda opinião

Presidenciais

Por algumas razões, achei que não devia escrever sobre as eleições presidenciais. Por outras, que sobrelevam as primeiras, entendi dever fazê-lo.

Não há, por ora, verdadeiras surpresas no horizonte eleitoral que se aproxima.

A candidatura quase clandestina, sem a menor força nem prestígio, que entretanto surgiu no espaço da direita radical, entre André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa, acaba por servir muito bem a este último. Como praticamente ninguém irá por aí, aos eleitores de direita que vivem desencantados com o atual presidente restam duas opções: passarem um domingo em casa ou optarem pelo candidato do Chega, apostando na antecipada certeza da derrota deste, mas expressando, dessa forma, o seu mal-estar com o atual presidente, aproveitando para lhe dar uma "lição", quiçá na esperança de lhe reduzirem o "score".

No outro lado do espetro, os comunistas terão, como sempre tiveram, o seu nome oficioso, para fazerem as contas às suas fidelidades. Como não haverá segunda volta, terão um dilema a menos.

O Bloco de Esquerda vai a jogo, como expectável, com Marisa Matias, a qual, há cinco anos, foi uma interessante surpresa, que, desta vez, não parece ter condições de se repetir. É que, com Ana Gomes no terreno, o eleitorado do "pintasilguismo" de nova geração, que já esteve com Manuel Alegre, que sempre oscila entre o Bloco e a esquerda do PS, passa a ter uma opção alternativa. Foi claro o afã de Marisa Matias em surgir a terreiro, como o foi a determinação de Ana Gomes em também marcar, desde cedo, o seu espaço. São, de facto, áreas políticas que, de certo modo, se sobrepõem. Haverá, entre as duas, um "womenagreement" de não-agressão, atentas eventuais cumplicidades criadas no Parlamento Europeu? Logo veremos.

Não parece fácil a posição de António Costa, em todo este cenário. Desde o episódio da Autoeuropa que ficou claro que, para ele, uma reeleição, quase oficiosa, de Marcelo Rebelo de Sousa, seria o mundo ideal. Mas, para tal, terá de ultrapassar alguns meses em que sabe que a uma parte, não desprezível e não desprezável, do PS não agrada a ideia de ser dada uma bênção automática a um recandidato ao qual parte importante da direita acabará por se ligar.

O eleitorado do PS é mais rebelde do que foi o do PSD, em 1991, que não tugiu nem mugiu quando Cavaco optou por apoiar Soares. Ana Gomes sabe que a sua candidatura representa o desconforto de muitos socialistas, perante a perspetiva de terem de votar em Marcelo. Pelos vistos, até de setores da direita do PS!

PUB

*Embaixador

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG