Opinião

Rir no fim

Poucas pessoas desprezaram mais as instituições europeias do que Margaret Thatcher.

A antiga primeira-ministra britânica olhava o projeto que tinha Bruxelas por eixo como uma perfídia institucional destinada a sabotar as soberanias nacionais, em proveito de uma burocracia que a si mesma se tinha por iluminada, ao serviço de um objetivo centralista, fruto de um conluio de potências que, no fim do dia, eram adversas dos interesses britânicos. Via isso como uma espécie de "socialismo pelas portas traseiras", como alguns por cá também ecoaram.

O Reino Unido, que historicamente começara por recusar a integração europeia, rendera-se, com íntima relutância, a ter de dele fazer parte, pelas desvantagens que resultavam da sua ausência. Fugiu, depois, a todos os compromissos que pôde evitar. Até um dia. Thatcher teria rejubilado, se tivesse assistido ao Brexit.

Lembrei-me ontem dela. As cinzas não riem, mas dei-me ao luxo de imaginar algumas gargalhadas a saírem do sítio onde as de Thatcher repousam, no Royal Hospital, em Chelsea. Mas teria ela razão para rir?

Ao assistir à feroz barganha das últimas horas, em especial à multiplicação dos "cheques" para compensação de alguns parceiros que mais avessos se tinham mostrado ao compromisso, lembrei-me do célebre "I want my money back!" (Quero o meu dinheiro de volta!), que sintetizava a sua postura reivindicativa dentro da Europa.

O processo financeiro europeu embrulhou-se ontem num modelo da maior complexidade, com algumas incoerências, induzindo dúvidas sobre a racionalidade de algumas soluções.

Mas isso importa para alguma coisa? Ontem, a Europa foi capaz, com todos esses defeitos processuais, de levar à prática exatamente aquilo para que foi criada: resolver os problemas dos cidadãos.

PUB

Há uns meses, falar da mutualização da dívida era um tabu. O tabu desfez-se. Por anos, era inviável a criação de "novos recursos", isto é, novas fontes de financiamento orçamental. Agora, são inevitáveis.

A Europa é lenta no processo, hesitante nas decisões, complexa nos mecanismos. É defeito? Talvez seja, mas é um defeito democrático. Quem se senta à roda daquela mesa tem um mandato a cumprir. Uns foram votados para serem avaros, com a solidariedade no fundo das prioridades. Outros clamam por compensações pela abertura dos seus mercados, arrostando com a imagem de pedinchões. Cada um tem a sua legitimidade. Discutem e resolvem.

Thatcher pode ter-se rido, ontem. Mas, na Europa, ri melhor quem ri no fim.

Embaixador

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG