Opinião

Sintomas do regime

Andando três décadas para trás, por esta altura do ano, terminava a "saison" social do Algarve. A Comporta ainda não estava na moda, o norte, exceção feita a Moledo, cujo nevoeiro nobilitava, nunca foi muito dado a essas coisas.

A sul, nos clubes e locais badalados, cavalheiros sorridentes, de calças encarnadas (raramente tidas por vermelhas) e camisa aberta, acompanhados de senhoras douradas, surgiam pelas páginas das revistas sociais.

O regime, que espero que ninguém se ofenda que eu chame de "cavaco-soarismo", espelhava ali o "novo Brasil", a riqueza da Europa, a que o país aportara tempos antes. Ministros, empresários, "socialites", "cromos" e penetras, alguns e algumas servidos por "petits noms", ilustravam, de copo na mão, as páginas da "Olá Semanário", publicação que inaugurou o álbum de glórias efémeras do "star system" à portuguesa.

Noutro registo, consonante com este, surgiam as quintas, os casamentos e batizados de famílias sonantes, os automóveis de luxo, às vezes os helicópteros e os iates, sinais exteriores de uma riqueza que, nem por invejada, ou talvez por isso, deixava de ser mostrada. Cavalos, golfe, ténis e coisas assim faziam parte do cenário. Uma figura aristocrática ou real à mistura, em especial se estrangeira, ajudava muito a compor o ramalhete.

Regressemos ao presente. Pandemia à parte, olhem-se, nos tempos de hoje, as revistas "sociais": os políticos sumiram, os poderosos entraram na clandestinidade social, a que agora se chama discrição. Futebolistas, apresentadores e atores de telenovela ocuparam o espaço de financeiros, da gente "bem" do "tout Lisbonne". Estes não desapareceram, mas vivem hoje sob um outro perfil: mostram menos piscinas e mansões, "glicerinam" as caras dos filhos nas fotografias, acham mesmo "cafona" quem ostenta uma riqueza recente.

Mas nada de equívocos: o Portugal social não se democratizou, porque as relações de poder e de riqueza não se alteraram por aí além. O que mudou, e radicalmente, foram os modelos de exposição social. E não há nenhum efeito geringonça neste recolhimento, o qual, aliás, já vem de há vários anos.

Aliás, algumas famílias e personalidades com poder sempre cuidaram em preservar a sua intimidade, nunca se deixando seduzir, ao contrário de outros, pela vaidade das revistas sociais. Cedo intuíram que as perceções estavam a mudar, que a inveja, cedo ou tarde, seria um sentimento protegido pelo "politicamente correto", que era preciso respeitar o choque provocado pelos contrastes de riqueza.

*Embaixador

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