Opinião

Só falam da América!

Só falam da América!

Há dias, depois de mais uma edição de um programa de comentário internacional em que regularmente intervenho na TVI 24, um conhecido interpelou-me: "Porque é que vocês só falam da América?".

Não é só da América que falamos mas, na realidade, o tema está muito presente em todas aquelas nossas conversas.

Trump, Biden, as relações de Washington com a Europa e com a China, o seu papel na NATO, o comportamento face à ONU e ao mundo multilateral em geral, o relacionamento com Moscovo, o posicionamento no xadrez do Médio Oriente - caramba!, de facto, estamos sempre a falar da América!

E, no entanto, tem mesmo de ser assim. Os Estados Unidos da América, para além do folhetim, entre o trágico e o divertido, em que a sua vida política interna recente se converteu, graças a um presidente bizarro, são, de há muito, um poder omnipresente pelo mundo. Às vezes, são um poder constrangente, que força a vontade alheia, outras vezes, a maioria delas, são um poder condicionador, que influencia o modo como os outros gerem a sua própria realidade.

Os EUA tanto são notícia por aquilo em que imiscuem, como o são pelo modo próprio como decidem abandonar esses cenários. Elefante em loja de porcelana, a América, pelo seu poder, não deixa ninguém indiferente. Se bem repararmos, é na reação assumida perante os EUA que o mundo se define, que se fica a saber de que "lado" está cada um.

Sei que esta é uma perspetiva que não agrada a muitos que, por boas ou más razões, são críticos dos Estados Unidos e consideram que não é saudável, para uma ordem internacional que idealmente se quereria mais equilibrada, ter esta dependência, quase obsessiva, do poder americano.

Muitos acham que, podendo ter tido alguma justificação que as coisas assim fossem durante a Guerra Fria, com um poder antidemocrático hostil do outro lado do muro, não subsistem já razões para nos mantermos sob a "paternal", mas menorizante, tutela americana.

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Outros, porém, receosos da força crescente da China, embora menos pela ameaça militar e mais pelo seu peso económico, terão ali encontrado uma justificação para voltar a recriar uma "América & os seus amigos", para se oporem ao "perigo amarelo", uma expressão desenterrada dos tempos em que o politicamente correto não limitava a nossa diversidade semântica.

A questão, como sempre, é o poder. Mas é também a vontade, porque metade do poder dos outros advém da maior ou menor facilidade com que deixamos manipular a nossa própria vontade.

Embaixador

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