Opinião

Trás-os-Montes no Avante

Trás-os-Montes no Avante

Nunca como este ano a Festa do Avante se tornou tão polémica. Tendo o debate começado por boas razões, de ordem sanitária, logo se percebeu que o argumento acabou utilizado como arma de arremesso por quantos diabolizam o PCP.

E se, na primeira questão, alguma razão se poderia reconhecer aos contestatários da festa na Atalaia, já o peditório anticomunista subsequente tresanda a áreas políticas insalubres.

Tendo um grande respeito pela luta dos comunistas contra a ditadura marcelo-salazarista, estive na primeira Festa do Avante, realizada na FIL, em Lisboa, em 1976. Depois, em 1978, voltei à festa, já então no Jamor. E, finalmente, em 1986, a uma outra edição, na Ajuda. Nunca estive no local onde o evento agora tem lugar, na Atalaia.

Mas a que propósito surge o título do artigo, perguntará o leitor? Por três razões.

Da festa no Jamor, guardo na memória uma cena passada no stand transmontano onde, naturalmente, fiz questão de ir jantar. Encontrei então por lá um velho colega de escola primária, de Vila Real, que eu sabia responsável do PCP local. Surpreendido com a minha presença, e suspeitando-me - e bem! - como mero "turista político", fez-me a pergunta: "Vieste cá à festa por vir ou vieste porque devias vir?". Saiu-me esta resposta: "Olha! Vim porque me apeteceu. E tu? Foste obrigado?" Não me recordo o que me respondeu.

A segunda nota transmontana prende-se com o pão da excelente padeira de Mirandela, de seu nome Seramota, que, ao que sei, todos os anos assegura uma presença comercial militante na festa comunista. No ano passado, quando, por esta altura do ano, passei por Mirandela para me abastecer do seu produto, fui informado de que a senhora estava de serviço na Atalaia.

A Festa do Avante tem ainda uma interessante nota final, bem ligada a Trás-os-Montes, terra onde as ideias comunistas nunca tiveram um acolhimento eleitoral por aí além. Foi em Tuizelo, no distrito de Bragança, que os comunistas portugueses descortinaram a dança popular que, desde os anos 80, abre e fecha os seus comícios e tempos de antena, a Carvalhesa. A música acabou por se transformar num verdadeiro segundo hino do PCP, muito pela mão de Rúben de Carvalho, uma simpática e dialogante figura, que há mais de um ano saiu da cena da vida e que, por muito tempo, foi a principal cara da Festa do Avante - e não escrevo "alma" por razões óbvias.

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Todos os anos, a Festa do Avante termina com toda a gente a dançar a Carvalhesa. Só podemos esperar que, este ano, o façam em total segurança.

Embaixador

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