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Opinião

Trump e a Rússia

Há quatro anos, estive num fórum sobre questões estratégicas em Kiev, na Ucrânia. Faltavam poucas semanas para as eleições presidenciais americanas e o tema, como não podia deixar de ser, dominava o ambiente.

Se a escolha de um presidente americano é sempre relevante para o mundo, muito mais o é para um país charneira como a Ucrânia, ainda atravessada por uma espécie de fronteira residual da Guerra Fria.

Os ucranianos de Kiev não esqueciam o apoio que a administração Obama dera ao afastamento do presidente pró-russo do país, num golpe político que, no entanto, acabou por ter, como preço, a perda da Crimeia e a fixação de um conflito "congelado" no Donbass, na zona leste do país.

As estranhas declarações que Trump então já produzia, dando sinais, em caso de vitória, de ser favorável a um apaziguamento com Moscovo, punham os cabelos em pé ao poder ucraniano.

Jogando pelo seguro, a organização do fórum tinha convidado americanos de ambos os lados do espetro. Por ali andavam nomes do republicanismo radical, como Karl Rove, Newt Gingrich ou John Bolton, mas também figuras do mundo democrático, como Leon Pannetta ou David Axelrod, até gente que tinha transitado de administração, como Robert Gates.

Uma maioria achava provável uma vitória de Clinton, mas as hipóteses de Trump não eram descartadas. Recordo o vaticínio sossegante de Gingrich: "Estou certo que Trump, se ganhar, vai rodear-se de gente experiente, do "establishment" republicano". Como ele se iria enganar!

Passaram umas semanas mais. As eleições americanas tinham tido lugar na antevéspera. Eu participava de um seminário luso-alemão, em Berlim. Todos - repito, todos - os que por ali andavam estavam aturdidos com a vitória de Trump, embora à época, ele fosse ainda uma daquelas incógnitas que não prenunciam o melhor.

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Se a delegação portuguesa estava ainda sob o efeito desse choque, não pode imaginar-se o estado em que fomos encontrar os nossos contrapartes germânicos, gente do governo e da oposição. Vivia-se por ali um ambiente de tragédia anunciada, o que, à luz do que hoje sabemos, teria com certeza a ver, uma vez mais, com a questão das cumplicidades de Trump com a Rússia.

O mundo de dúvidas sobre a verdadeira natureza da estranha relação política entre Trump e Putin permanece até hoje. Não sabemos se o que vier agora a passar-se pode abrir caminho a que o assunto seja esclarecido ou se, pelo contrário, ajudará a enterrar ainda mais esse mistério. Fosse eu crente e diria: "God bless America"!

*Embaixador

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