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Uma segunda opinião

Um manifesto de decência

Um manifesto de decência

Um texto publicado ontem no "Público", subscrito por figuras da direita, situadas numa faixa etária que, em média, deve rondar os 40 e poucos anos, assume-se como um separador de águas entre esse grupo de "conservadores, liberais, moderados e reformistas" e uma "direita autoritária", com uma postura "nacionalista, identitária e tribal", que por aí anda.

Devo dizer que, independentemente de interpretar a presença de alguns nomes dentre os subscritores como uma reserva de mercado para as suas próprias apostas partidárias, vi esta tomada de posição como a coisa mais saudável que, nos últimos anos, surgiu oriunda daquela área política.

Era tempo da direita democrática, sem a presença ativa da qual o nosso regime constitucional não tem o menor sentido, deixar uma nota explícita de repúdio pela sua frequente amálgama com algumas correntes populistas, com laivos racistas e xenófobos, no limite com contornos fascistas e afins.

A culpa de se ter deixado envolver pela caricatura resultou do silêncio até agora mantido por essa mesma área política, como o surgimento deste texto bem evidencia. Mas esta é também uma bela justificação para os seus adversários, nos quais me incluo, passarem a olhar este setor, sempre e quando a sua postura e ação se afirmar no sentido que agora revelou, como um parceiro na defesa do processo democrático.

Não é uma coincidência que o texto tenha surgido depois do anúncio do compromisso, em termos escritos, entre o Chega e a coligação que agora assume o governo dos Açores. E porque o não é, este manifesto acaba por ser uma manifestação de repúdio daquela obscena aliança.

É muito saudável para a salubridade da nossa vida política ver alguma direita democrática afastar-se de um ato de puro oportunismo, que abre a porta e estende a mão a um partido que traz consigo uma agenda que cavalga medos, preconceitos e sentimentos mesquinhos, indignos de um mundo civilizado e tolerante. E, como bem refere o texto, não é por outros, à esquerda, terem "cedidos a frentismos que anteriormente rejeitavam" que, do outro lado do espetro político, se vão "cooptar radicalismos de sentido contrário".

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Mas o Chega não é um partido legal? Claro que é. Cumpre formalmente os requisitos para se enquadrar na moldura constitucional. Porém, o seu discurso e propostas têm demonstrado que alimenta uma doutrina que o coloca, claramente, fora dos limites da decência política democrática, como os subscritores deste manifesto bem observaram. Coisa que, pelos vistos, o dr. Rui Rio não terá visto.

*Embaixador

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