Uma segunda opinião

Um outro país que por aí existe

Um outro país que por aí existe

Numa destas noites, para escapar ao debate político nas televisões, nas margens das regras de confinamento, saí a pé uns quarteirões. Deparei, numa porta iluminada, com uma loja de produtos de alimentação e de primeira necessidade. Não precisava de nada, mas entrei. Uma cara escura, com uma máscara negra, deu-me um "boa noite" com sotaque. Para justificar a incursão, comprei qualquer coisa, de que, verdadeiramente, não sentia falta. Ao contrário do que costumo fazer com os estrangeiros com quem calha cruzar-me no mundo do comércio, nos restaurantes ou nos Uber, não perguntei de onde era. Sri Lanka ou Bangladesh ou Paquistão seria, com certeza, a resposta. Mas podia ser o Nepal, mas raramente a Índia.

Desde que me conheço, tenho um sentimento muito sincero de simpatia pelos estrangeiros que trabalham entre nós. Sinto-me feliz por ser parte de um país que acolhe gente vinda um pouco de todo o mundo, fazendo nós assim, sem o assumirmos, uma espécie de retribuição pelo facto de, desde há séculos, muitos compatriotas nossos terem andado fora de fronteiras à procura de melhor vida e de aí terem tido, com maior ou menos dificuldade, oportunidades para navegar o seu destino.

Quando por aí me cruzo com cabo-verdianos ou angolanos ou santomenses, a esses quase que os não coloco nesse mundo de forasteiros imigrados. São "da casa", tal como muitos brasileiros. Mas acho imensa graça ao facto de haver chineses um pouco por todo o lado, de ter migrantes do Leste europeu quase confundidos connosco, de poder ter gente do Industão no nosso comércio de bairro. Encontrar gente diversa a partilhar a nossa vida, saber interagir com eles, respeitá-los e dar-lhes oportunidades de mostrar que são bem-vindos e que gostamos de os ter por cá torna-nos um país melhor.

Porque é que falo disto agora? Porque Portugal, gostemos ou não de ouvir isto, vai entrar numa crise económica, e que, por muitas "bazucas" que houver, elas só terão efeitos a prazo pelo que, no imediato, virá por aí algum desemprego. E o desemprego que, como é sabido, afeta, em prioridade, os imigrantes, cria pobreza, instabilidade social e criminalidade, não sendo de excluir que alguns estrangeiros possam ser apanhados nessa malha. E como sabemos que a imprensa do crime não tem a menor ética antixenofóbica ou antirracista, sendo mesmo atiçada pela onda nacionalista que agora chega, as pessoas decentes vão ter a obrigação de assumir uma resposta política a uma rejeição dos estrangeiros, que pode estar aí ao virar da esquina.

Embaixador

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