Opinião

Vergonha e pânico

Senti vergonha, no caso de Tancos.

Senti vergonha ao constatar que uma instalação militar portuguesa, com paióis de armamento e explosivos, instrumentos ideais para terrorismo e delinquência, esteve à mão de semear de uns gatunos de trazer por casa e que autoridades do meu país entraram, depois, numa ridícula competição clandestina de competências sobre quem devia tomar conta da aferição criminal daquela indignidade. Que tristeza foi ver Portugal a ter de explicar, lá fora, na NATO, aos parceiros, que não era grave, tudo se iria remediar...

Há muitos anos, já havia sentido vergonha - vergonha maior, porque estava ao tempo no Governo - ao constatar que uma querela, envolvendo governantes, deputados e jornalistas, tinha fragilizado fortemente os nossos serviços de informação, pondo em causa a segurança física de operacionais e cobrindo-nos de ridículo internacional, de que ainda hoje - para quem não saiba! - a imagem de Portugal não se recompôs.

Sinto hoje vergonha quando constato a complacência objetiva, por muito disfarçada que seja, perante atos de racismo e de violência que, ciclicamente, teimam em manchar a imagem da nossa polícia, transformando uma esquadra, que deve ser um espaço de segurança, num local perigoso para a integridade de alguns - quer se trate de bandidos ou de meros suspeitos.

Contudo, nada me envergonhou mais, devo dizê-lo, nos últimos anos, do que o ato que terá sido cometido por uns sujeitos que, utilizando a autoridade que o Estado lhes havia conferido, assassinaram, bárbara e cobardemente, um cidadão estrangeiro que estava confiado à sua guarda - à guarda de forças policiais que supostamente estão especialmente treinadas para lidar com casos deste tipo.

Passamos anos a orgulharmo-nos por louvores que o país recebe, lá por fora, pelo humanismo das nossas políticas de acolhimento de estrangeiros e refugiados, para depois, por falta de liderança e de capacidade para separar, a tempo e horas, as "maçãs podres" do resto, ocorrerem situações destas. E, sempre, ao lado da decisão para clarificar rapidamente as coisas e tirar consequências exemplares, fica a ideia de haver um arrastar corporativo de pés, no fundo, uma cobardia institucional.

Um "botão de pânico" - que todos imaginamos que, se tivesse existido ao tempo do assassinato do cidadão ucraniano, seria por este "facilmente" utilizável ... - começa a ser necessário para o cidadão comum, como forma de poder reagir perante o espetáculo que lhe é proporcionado por algumas das suas instituições.

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*Embaixador

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