Opinião

Europa: que sustentabilidade?

Europa: que sustentabilidade?

Ante uma complexa conjuntura internacional, os europeus esperam que da Cimeira de líderes da Zona Euro, agendada para 11 de Março, e do Conselho Europeu, agendado para os dias 24 e 25 de Março, saiam sinais inequívocos que demonstrem uma capacidade de resposta à crise sistémica que persiste na Europa, assegurando crescimento económico sustentável e que, conjuntamente, proponha uma vigorosa refundação da identidade europeia.

Como se sabe, a União Europeia - em especial a Zona Euro - vive o pior momento da sua existência, sendo, por esta razão, imperioso recuperar os ideais do seu projecto político e cimentar o futuro. Aliás, a Europa não poderá sobreviver sem efectivar esse projecto político.

Como indagava o notável ensaísta português António Sérgio: "Conhecem a lenda do relógio de Estrasburgo? O conselho municipal, temendo que o construtor fizesse segundo, mais estupendo ainda, para qualquer outra cidade, resolveu-se a arrancar-lhe os olhos; pediu-lhe então o relojoeiro que lhe deixassem ao menos tocar na obra pela última vez; e, chegando-se a ela, tirou ao mecanismo uma virola. Cegaram-no depois. Mas o relógio já não andava: todas as rodas giravam bem, mas não engrenavam entre si (...)". Em suma, desaparecida a unidade, a máquina facilmente se desarranja.

Ora, a União Europeia não sobreviverá sem essa virola. Isto é, sem uma inequívoca afirmação de um projecto político e de uma política económica, fiscal e social coesa. Para responder aos choques assimétricos - como foi o desta violentíssima crise, que dura já há quatro longos anos - é premente que a política monetarista avance a par de um imprescindível projecto político que reforce a sua integração, a coordenação das políticas e assegure crescimento económico sustentável e equilibrado junto de todos os estados-membros.

E se no "Annual Growth Survey", documento de resposta à crise apresentado pela Comissão Europeia em Janeiro último, se afirma a necessidade de acelerar uma política de consolidação financeira e de se levarem a cabo reformas estruturais no plano social e laboral, será também imperioso considerar que qualquer ajustamento europeu a esta crise global por via salarial ou laboral - enfraquecendo a respectiva protecção - não será, a médio prazo, economicamente sustentável, uma vez que só os ganhos obtidos pela produtividade serão, a prazo, garantia de sustentabilidade.