Opinião

Oportunidades perdidas

Oportunidades perdidas

"Se pudesse voltar ao passado, quem gostaria de encontrar?" O desafio abre "Antes que o café arrefeça", obra do japonês Toshikazu Kawaguchi que conta a história de um café centenário em Tóquio onde os clientes podem voltar ao passado. Uma janela de oportunidade curta para regressar ao passado e revelar ao namorado que partiu o que não se conseguiu dizer, ler a carta que o marido com Alzheimer escreveu antes de perder a memória, ver pela última vez a irmã que morreu precocemente ou descobrir a filha que não se teve oportunidade de conhecer. Um romance belo e desconcertante sobre a vontade que todos sentimos, a dada altura da vida, de resgatar um momento do passado, dizer o que ficou por dizer, fazer o que não conseguimos, emendar um erro que nos fez sofrer. Uma lição sobre oportunidades perdidas.

Os resultados da conferência anual do clima da ONU (COP27), que terminou ontem em Sharm el-Sheik (Egito) - dois dias depois do esperado devido às difíceis negociações entre 200 países -, são uma gigantesca oportunidade perdida no que respeita às emissões de carbono. Não houve avanços nas metas de redução dos gases de efeito estufa, não se chegou a um compromisso para erradicar gradual e definitivamente os combustíveis fósseis (petróleo e gás) - condição essencial para assegurar um aquecimento não superior a 1,5 °C em relação à era pré-industrial -, e não foram impostos deveres aos principais países poluidores. "Um passo muito curto para os habitantes do planeta", resumiu o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans.

PUB

É verdade que se acordou a criação de fundo para compensar perdas e danos causados por cataclismos naturais, uma reivindicação dos países em desenvolvimento, particularmente vulneráveis aos desvarios do clima. A resolução, descrita como histórica, dada a relutância dos países ricos, é um avanço importante em direção à justiça climática, mas há um longo caminho a percorrer, uma vez que ainda não se sabe quem serão os beneficiários e os detalhes do financiamento só serão adotados na COP28, que se realizará no final de 2023, nos Emirados Árabes Unidos.

É certamente da natureza humana falhar, perder oportunidades. E dos governos também. Mas impõe-se continuar a tentar, falhar outra vez, tentar de novo, aprender. E fazer melhor. Antes que se esgotem o tempo e as oportunidades.

*Editora-executiva-adjunta

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG