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Hugo Silva

#devesersono

Acordei, era verão, mas estava frio e a chover. Acordei, meio país a arder e o Estado a distribuir kits inflamáveis para o povo se proteger. Acordei e, afinal, os kits eram só de brincar, mas tinham sido carotes num negócio esquisito. Acordei e o país exultava porque um miúdo com jeito para a bola tinha rendido mais de 120 milhões. Acordei, e crianças precisavam de dois milhões de euros para terem direito a viver. Acordei e reinava a revolta porque uns artistas achavam que 630 euros de salário é pouco e iam fazer greve. Acordei e um governo alegadamente de Esquerda tinha escalado dos serviços mínimos para a requisição civil, com ameaças de prisão pelo meio. Acordei e os partidos de Esquerda estavam mudos. Acordei e os partidos de Direita estavam a dormir. Vou fazer o mesmo. O meu mal deve ser sono.

Hugo Silva

#fogo!

O Batalhão de Sapadores da Internet acorreu ontem a várias publicações que ameaçavam incendiar as redes sociais. Temia-se que as chamas alastrassem a toda a Internet, pelo que a corporação mobilizou cerca de meio elemento. As operações de socorro incluíram profissionais da Direção de Saúde, uma vez que foi avançada a hipótese de pelo menos uma das publicações em causa ser viral. Não se confirmou. Mesmo após o rescaldo, as autoridades mantêm-se em alerta cinzento às pintinhas roxas e risquinhas grená porque o Indignómetro apresenta níveis preocupantes. A volatilidade dos estados de alma dos internautas obriga a atenção redobrada. Foram também lançados alertas devido ao desaparecimento de várias vogais em caixas de comentários. A Brigada de Investigação de Abreviaturas Absurdas continua à espera de wi-fi para atuar.

Hugo Silva

#galgaria

Alto e pára o baile! Onde é que o meu amigo pensa que vai a correr? Não quero saber se está com pressa. A autoridade precisa de respostas, vai ter de esperar. Ora então diga lá, essa correria é atividade profissional ou lazer? Nem uma coisa nem outra? Mau, está a desconversar. E peço-lhe que ladre mais devagar. Então não sabe que as corridas de galgos estiveram quase, quase a ser crime? Está bem, foi chumbado, mas temos de manter-nos atentos. E se essa corrida é profissional, pode ter problemas. Mas, diga lá, onde vai com tanta pressa? Evitar um assalto num banco? No banco onde tem conta? Mau Maria... Depois explica-me como é que um cão tem dinheiro para abrir uma conta. Tem a certeza que não é corredor profissional? Adiante. Agora vamos lá ao banco, que há um assalto para impedir. Sabe quem são os suspeitos? O quê? É o próprio banco que está a assaltar clientes? Lá estamos nós a desconversar. O banco quer ficar com dinheiro dos juros que não lhe pertence? Nem sei que lhe diga... Olhe, vá lá, por esta passa. Mas não corra. Apanhe o metro que já passa na ponte. Alguém deve ter acendido uma velinha.

Hugo Silva

#traseiras

Os diretos televisivos dos líderes partidários a votar são as traseiras dos autocarros da política. Passo a explicar: no tempo em que os animais falavam, pelo menos assim me explicou um sábio porco-espinho, ficou estipulado para todo o sempre que, em dia de jogo de futebol minimamente importante, mostrar em direto as traseiras dos autocarros das equipas a circular na estrada revestia-se de incomensurável interesse. "Não é verdade", disse-me o porco-espinho, que também fica eriçado quando vê os diretos de políticos a votar sempre que há eleições. O valor noticioso é idêntico: nenhum. Os políticos chegam, cumprimentam toda a gente, distribuem sorrisos, dizem que estão confiantes e apelam ao voto. Multiplique-se isto por meia dúzia e temos boa parte da manhã "noticiosa" tão interessante como a traseira de um autocarro. Abstenho-me!