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Hugo Silva

#perspetiva

É tudo uma questão de perspetiva. Se eu for ao volante, insulto tudo o que é peão. Se andar a pé na rua, todos os condutores são bandidos. Se vir os prédios em construção junto à Ponte da Arrábida vindo da Foz, enervo-me com a obstrução do monumento. Se os vir do lado da Ribeira, não me aquece nem arrefece. Se os vir de frente, a partir de Gaia, nem desgosto. Se estiver em Nova Iorque, fico deslumbrado com tantos e tão imponentes arranha-céus. Se estiver no Porto, marco uma manifestação sempre que se quiser construir um edifício com mais de dois andares. Se morar em Campanhã - por muito "trendy" que venha a ser no futuro, por estes dias continua a ser a freguesia mais pobre do Porto - aplaudo todas as soluções que aumentem o transporte coletivo e até aceito (adiantava um grosso não aceitar) as alterações ao trânsito necessárias. Se morar na Avenida do Marechal Gomes da Costa, protesto contra o metrobus, que vai perturbar o meu automóvel. Já basta a desfaçatez de terem aberto um supermercado na "Marchal", ainda vão pôr mais povo a passar lá e com prioridade na estrada. Protesto e até consigo que mudem e desvirtuem o projeto. Porque, afinal, é tudo uma questão de perspetiva.

Hugo Silva

#meterágua

Num país tão dado a meter água, é estranho que só agora haja resultados de jeito na natação. E como somos atrasadinhos, quando é que o nosso Aquaman consegue dar-nos esperança de conquistas na piscina dos adultos? Precisamente na altura em que o Mundo atravessa uma grave seca que, provavelmente, acabará com a modalidade, porque vai ser preciso esvaziar os tanques. Sem água, a natação perde alguma piada. O pior é que já nem nas corridas secas nós valemos grande coisa. Tempos houve em que mandávamos nas distâncias longas e no mato, mas agora não estamos para grandes esforços. Para isso há trotinetas. Como nem tudo são más notícias, a inflação vai descer a pique em novembro. Hossana nas baixuras! Se o Governo só dá ajuda para outubro, é porque depois tudo vai melhorar. Em tempo de seca, ninguém conseguiria meter tanta água.

Hugo Silva

#temhoras?

Trrim... trrim..."Estou?" Sim? "É da Federação Portuguesa de Futebol?" Sim. "Olhe, estou aqui junto a um estádio e queria perguntar as horas a alguém. Acha que corro o risco de ser processado?" Ui..., eu afastava-me um bocadinho. Ainda pergunta a um jogador, treinador, delegado, massagista ou tratador de relva e agora todos eles são obrigados a responder no fuso horário do Catar. Sabe como é, o Mundial é lá e os patrocinadores exigem... Adiante há um hospital, pergunte aí. "Oh! Ainda dava com o senhor dos médicos e ele não é grande coisa com números. Ora diz que andam exaustos com tantas horas extra e que há serviços que têm de fechar, ora diz que não faltam médicos. Obrigadinho pela sugestão". Estou a tentar ajudar... Vá à igreja mais à frente, então. "E se apanho o Papa? Então os agentes desportivos sempre podem responder?"

Hugo Silva

#dáfome

Banco Alimentar contra a Fome, Refood, Cruz Vermelha, CASA - Centro de Apoio ao Sem-Abrigo, Associação de Proprietários da Urbanização de Vila d"Este, Legião da Boa Vontade, Misericórdia do Porto, Porta Solidária (igreja do Marquês), restaurantes solidários da Câmara do Porto, Ajudaris. Estas instituições distribuem comida a carenciados. Deixo a lista na esperança de que chegue aos administradores da EDP. É ingrato gerir uma empresa que só teve lucros de 801 milhões em 2020, de 657 milhões em 2021 e vai nos 306 milhões no primeiro semestre de 2022. Com isso não se governa uma casa, quanto mais uma empresa. É preciso tirar da boca para manter estes lucrozitos mixurucas. Por isso, quando lhes der a fome, é ir a um destes locais. De preferência, num veículo que não se mova a gás. Para poupar, podem dar boleia aos colegas da Galp.

Hugo Silva

#palitismo

Rita Pereira usou tranças e de imediato gerou-se uma algazarra virtual, porque a atriz estava a cometer o crime de apropriação cultural. As tranças têm dono. Pois um dia destes vi um turista de palito na boca e nem um protesto ouvi. Um sussurro que fosse. Ninguém contestou este crime de lesa-pátria. Andamos nós séculos a aperfeiçoar a arte de pôr o palito a dar piruetas e mortais encarpados na boca, e vem um forasteiro usurpar um dos símbolos maiores do "nacional-tuguismo". Tive que conter-me para não falar. Se lhe vislumbrasse uma unha comprida no dedo mindinho ou o visse a cuspir para o chão, aí, não sei se me segurava. Há coisas que são só nossas! Mas o indivíduo também não se ficou a rir. Vi que a matrícula era espanhola e, mal acabei de almoçar, fui logo dormir uma soneca. Tiram-nos os palitos, mas eu roubo-lhes a sesta!

Hugo Silva

#complicadinhos

Há gente muito complicada. Na fila da peixaria há sempre alguém que quer uma dourada não muito grande nem muito pequena, escalada, sem cabeça, com cabeça, com meia cabeça, com dois quartos de guelras. Há sempre alguém que quer "p"raí" um quilo de sardinhas, mas pode ser 900 gramas, não, espere, um quilo e meio, ui, afinal é muito, pode ser um quilo e cento e vinte e três gramas. Na fila do talho há sempre alguém que quer um bife barato mas bom, que dê para grelhar, para fritar, estufar ou para fazer um centro de mesa. Há sempre alguém que quer um frango parcialmente desossado mas com miúdos, menos o fígado que é muito seco, dois terços das patas, um frango do campo, da cidade ou do espaço. No café há sempre alguém que quer um café em chávena fria ou escaldada, curto, muito curto, longo, muito longo, três quartos, dois quartos, um quarto e uma suite. Há sempre alguém que quer uma torrada sem manteiga, com pouca manteiga, com alguma manteiga, com muita manteiga, aparada, pouco tostada. Há gente muito complicada. Depois admiram-se que um ministro contrate um assessor mais ou menos bem pago (invejosos!) para ajudar a descomplicar. Que complicadinhos.

Hugo Silva

#tik tuk tipo

Um jovem pós-adolescente usa a palavra "tipo" 357 vezes por segundo. Mas a muleta lexical não explica por que razão o jovem pós-adolescente entrou no metro de invernosa camisola com capuz, quando o ar condicionado, solidário com o aquecimento global, derretia os passageiros. Procurei explicação no TikTok, mas só lá encontrei inefáveis políticos, como o presidente da Câmara de Lisboa, ávidos de conectar-se com os jovens, através de apontamentos pós-adolescentes. Tanto disparate apanhei no TikTok que fui de tuk-tuk apresentar queixa na Polícia. Só que, primeiro, confundi o posto móvel da PSP com uma rulote de bifanas, depois, com uma caravana de churros e, por fim, com uma banca de gelados. Tanta porcaria comi, que fiquei mal da barriga. Tentei ir às urgências, mas estavam fechadas. Voltei ao metro. E ainda lá estava o jovem do capuz. Tipo...

Hugo Silva

#pelaestrada

Um Cavaco Silva em cada carro. É esse o meu desejo para 2023, que os de 2022 estão quase esgotados e, com os juros a subir, os que sobram ficaram inacessíveis ao meu bolso. Ao volante de cada veículo, quero alguém que nunca se engane e raramente tenha dúvidas. Seja para evitar as lesmas ou os ases do asfalto que fazem 546 transgressões para chegar à saída da autoestrada de que se tinham esquecido. Um país sem dúvidas ao volante permitir-nos-ia atacar os verdadeiros problemas civilizacionais que nos assolam. Como o facto de uma atriz usar tranças. Rita Pereira levou na cabeça porque, precisamente na cabeça, entrançou o cabelo. "Apropriação cultural!", clamaram polícias de serviço. Um país, assim, que se quer compartimentado e assético - embora esteja cada vez mais, isso sim, acéfalo - não se coaduna com tanta dúvida na estrada.

Hugo Silva

#Fogo!Fogo!

"Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Vamos para intervalo. Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Fogo! Guerra, futebol, vai estar calor. Boa-noite". Por estes dias, ver um noticiário deixa-me em chamas. O povo quer pão e circo. Circo mediático, entenda-se, que aos bombeiros só temos de agradecer o esforço e deixá-los trabalhar em paz. E se para o pão já não há dinheiro, pelo menos que se varie o tal circo mediático. Eu até ajudava, mas sou palhaço pobre. Até o presidente da República e o primeiro-ministro cancelaram as férias por causa do fogo. Numa altura em que o turismo recupera da pandemia é admissível? Pensaram nas agências de viagem? E se o resto das pessoas que ainda conseguem tirar férias seguirem, como se impõe, os líderes? Ninguém vai de férias? Fogo...

Hugo Silva

#tragédias

A morte de uma criança às mãos de adultos não é uma tragédia, é um crime. Horrível, mas um crime. Tragédia é ouvirmos pessoas a vociferar aos microfones do infoespetáculo "A gente também semos mães!". Ou lermos nas redes sociais a pergunta de uma jovem que quer "fazer pigmentação às cebranseilhas". Tragédia é enchermos a boca com a geração mais preparada de sempre e ignorarmos os problemas da Educação. Tragédia é termos a Saúde em colapso e vermos políticos e profissionais a discutirem os seus canteiros esquecendo o que interessa: os utentes. Tragédia é vermos os preços a galopar de dia para dia, milhares a caírem no desespero e na pobreza e a inteligência nacional centrar-se na ópera bufa do novo aeroporto. A morte de uma criança às mãos de adultos não é uma tragédia, é um crime. Mas há tragédias que deviam ser crime.

Hugo Silva

#subvenção

No fundo, tudo se resume à semântica. Uma mentira soa melhor se for só uma inverdade. Chamar alguém de trabalhador tem conotação negativa, colaborador é muito mais amigável. Dizer deslocalizar é preferível a anunciar que se fecha aqui para abrir noutro lado com colaboradores mais baratos. Por isso, entendo que se chame subvenção ao dinheiro que todos os meses mais de duas centenas de políticos e juízes levam do Estado de forma vitalícia. Não soava bem dizer que tais individualidades recebiam um subsídio. Isso é para os preguiçosos do rendimento mínimo ou dos desempregados. Subvenção tem nível. Afinal, estamos a falar de mais de meio milhão de euros por mês. E é preciso respeitar quem sempre colaborou tão bem. Só não percebo quem apregoa que já não há empregos para a vida. É que desta zona de conforto muito poucos querem sair.

Hugo Silva

#doenças

A doença das vacas loucas e a gripe das aves já são "old fashion", mas um morcego continua a ser suspeito de causar a pandemia de covid-19 e temos a varíola dos macacos em alta. Apesar da situação de emergência no SNS, sou obrigado a concordar com quem diz que não há falta de médicos. Pelo menos, daqueles que tratam seres humanos, porque a conversa é outra se falarmos de veterinários. Onde anda esta gente, que a bicheza farta-se de nos passar doenças? Mas enquanto estes especialistas não assumem de vez a missão de pôr os animais a tomar a medicação a horas, podíamos contratar mais uns clínicos para o SNS, pagando em condições. E formar mais médicos, para garantir que não se voltam a fechar serviços. Os animais são muito importantes, mas se não tratarmos dos humanos, quem dá a comida aos cãezinhos, gatinhos e periquitos?

Hugo Silva

#gourmet

Há uns quantos cães na vizinhança que me fazem querer comer cabrito todos os dias. Mas como sou uma pessoa mais de gatos, enjoei o coelho. A lebre não me aquece nem me arrefece. A não ser que seja gourmet. Em matéria de quantidades, vou passar a ser gourmet. Uma amostra de comida no prato, com espuma disto e redução daquilo, já chega. Ao preço a que as coisas estão no supermercado também não dá para mais. Os carrinhos das compras já estão parados, a enferrujar. Para a bolsa dos portugueses, um cesto dos pequenos, daqueles sem rodinhas, é suficiente. Sempre se poupa para o Primavera Sound. É caro e também não deixa de ser gourmet. Só 10% das bandas são para comer. O resto são espumas e reduções, que ficam bem numa suculenta foto de rede social. Ao lado da imagem de um cãozinho e de um gatinho. Bom apetite!

Hugo Silva

#dores

Só quem nunca se trilhou no fecho-éclair da carcela, deu uma topada com o dedo mindinho numa mesa ou tentou pedir um cartão do cidadão pode acreditar que as palavras são o que mais magoa. As palavras agridem, sim, mas podemos sempre ripostar, algo impossível perante uma carcela, uma mesa ou a incompetência de serviços públicos. E se podemos apostar em braguilhas com botões ou forrar a mobília com esponja, face ao inferno da burocracia estamos indefesos. Online, o sistema falhou sempre. Telefonicamente, a linha de apoio não pôde apoiar. Presencialmente, entre greves, senhas esgotadas de madrugada e uma responsável de loja do cidadão que merecia o prémio para o melhor "quero lá saber" do ano, o processo não teve melhor desfecho. As palavras não são o que mais magoa. Mas às vezes apetece mesmo gritar umas "pedradas".