O Jogo ao Vivo

Opinião

A arte de fingir medidas duras

A arte de fingir medidas duras

É difícil acreditar que alguém com a experiência de António Costa cometesse o erro de tentar impor uma app como a StayAway Covid sem ter avaliado previamente os efeitos pretendidos com esse risco.

A aprovação da aplicação foi desde início condicionada ao seu carácter voluntário, nenhum país europeu admitiu uma obrigatoriedade que nos coloca ao nível de países como China e Índia e era previsível que a proposta esbarrasse na desaprovação do Parlamento, bancada do PS incluída.

Só se percebe que o primeiro-ministro tenha comprado uma guerra perdida à partida para transmitir uma sensação de autoridade e dar o "abanão" que disse estar a ser necessário. Um abanão, ainda assim, com um preço elevado. Ao mexer em direitos fundamentais e dar um sinal de desorientação, corre o risco de perder credibilidade na gestão futura da crise. Até porque, como criticou o epidemiologista Henrique Barros, nenhuma pandemia poderá ser eficazmente combatida através do medo.

Por limitações técnicas e humanas, a aplicação nunca poderá substituir o trabalho das equipas de saúde. E essa é uma das notas mais preocupantes destes dias: perdeu-se a capacidade de rastrear os contactos de risco, o que impede que se quebrem cadeias de transmissão. A diretora-geral da Saúde admitiu que em cerca de 40% dos casos já não está a conseguir identificar-se a origem do contágio. É aqui, a montante, que o reforço de meios é urgente. Acompanhado de medidas direcionadas e ajustadas à escala local, sem ruído inútil nem exercícios meramente aparentes de dureza.

De nada serve passar uma ideia de força se, na prática, não são feitas ações concretas. Percebe-se o receio de agravar ainda mais o estado da economia, mas o presidente da República imediatamente apontou caminhos alternativos ao confinamento geral, como medidas diferenciadas nas freguesias mais afetadas. Sem ignorar a pressão de cenários drásticos, Marcelo chegou a referir o recolher obrigatório. António Costa pode resistir, mas a certa altura, além de fingir autoridade, vai ter de a exercer.

Diretora-adjunta

Outras Notícias