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A batalha contra o cancro

A batalha contra o cancro

A expressão foi largamente usada na Comunicação Social pela última vez na semana passada, por ocasião da morte da atriz Guida Maria. Mas a fórmula é recorrente, aplicada a doentes com cancro. "Perdeu a batalha". A frase, tão gasta, encerra em si uma visão estranha do cancro que acaba por estigmatizar as próprias vítimas. Como se houvesse, nesta luta diária que tantos travam, guerreiros com mais capacidade e força do que outros.

A atriz brasileira Márcia Cabrita, que morreu em novembro, falou de forma desassombrada sobre o quanto a irritava ouvir falar em perder ou ganhar a batalha, sobretudo quando se considera a vontade de viver uma explicação para os que se salvam. "Quer dizer que quem morre não amava a vida?", questionou a dada altura, acrescentando ser esquisito que este raciocínio apenas se aplique ao cancro. "Ninguém diz que alguém perdeu a batalha para o enfarte, nem que amava tanto a vida que ficou bom da tuberculose."

É inquestionável, cientificamente comprovado, que a vontade e a atitude do doente influenciam os tratamentos. Mas não bastam, nem os determinam por si só. Não há fatores únicos na dolorosa combinação de variáveis que interfere no desenvolvimento da doença. E o discurso público de que uma atitude combativa leva à cura acaba por criar sentimentos de culpa naqueles que, por exemplo, reincidem depois de um período de remissão.

Talvez tivéssemos a ganhar se deslocássemos o olhar do combate individual para a batalha coletiva. Atendendo às estatísticas que anteveem uma incidência de uma em cada duas pessoas atingidas em 2030, o cancro é uma inegável prioridade na investigação e nas políticas de saúde. Devemos exigir que não haja as restrições financeiras por vezes denunciadas em terapêuticas inovadoras, nem entraves burocráticos ou vergonhosas cativações como a que impediu, durante um ano, a construção do novo bloco operatório do IPO de Lisboa.

Mas também devemos analisar o contributo de fatores nos quais todos temos alguma possibilidade de intervir, a começar pela alimentação, pela poluição ou pelo estilo de vida sedentário e com elevadas cargas de stresse. A luta contra o cancro é de todos, não de "guerreiros" confrontados com discursos que, parecendo encorajar uma atitude positiva perante a doença, acabam por responsabilizar os que caem. Cada vida (e perda) é única, mas todas são batalha coletiva.

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