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Opinião

A culpa dos outros

Há um denominador comum às sondagens sobre medidas restritivas para contenção da pandemia que o JN tem vindo a publicar nos últimos meses. Os inquiridos são sistematicamente a favor de medidas duras, como ainda agora se confirmou em relação às festas de dezembro: 71% apoiam proibições de viagens e de reuniões familiares no Natal, percentagem que sobe para 78% no Ano Novo.

Antes de serem anunciadas decisões políticas nesse sentido, 81% dos portugueses ouvidos na sondagem anterior defendiam o recolher obrigatório. Medida antecedida, no verão, pela defesa acérrima de um novo confinamento durante a segunda vaga. A Comissão Nacional de Proteção de Dados está cheia de processos por divulgação abusiva de informações de doentes infetados. E no primeiro estado de emergência, em março e abril, foi surpreendente o sentido das queixas de cidadãos junto da Inspeção-Geral da Administração Interna: não houve denúncias por abusos das forças de segurança, mas pelo que se considerou ser inação face aos infratores. Ou seja, falta de autoridade.

Somando os indicadores, o que fica é a sensação de que a pandemia instigou os nossos instintos policiadores e que o medo se sobrepõe em toda a linha à defesa de direitos e liberdades que tínhamos por adquiridos. A proibição passou a ser a palavra de ordem. E mesmo que todos acabemos por infringir ou ter comportamentos menos cautelosos, é sempre mais fácil apontar o dedo aos outros e exigir mais regras e fiscalização.

Como pano de fundo, nesta visão proibitiva, está uma cultura que coloca a tónica na culpa do outro, mais do que no comportamento individual. Que acredita pouco no sentido de responsabilidade e na capacidade de usarmos com bom senso a liberdade. Que cultiva pouco o rigor, o espírito crítico e o dever de cidadania. É uma pena que os desafios da pandemia tenham reforçado a vontade de termos um polícia a cada porta. Em vez de nos fazerem crescer como sociedade unida em torno de valores maiores.

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