Opinião

A democracia a funcionar

A democracia a funcionar

A três dias da votação do Orçamento do Estado, cresce a sensação de que o país poderá mesmo vir a assistir a uma falta de apoio, inédita nos últimos seis anos, ao Governo socialista. A decisão está nas mãos do PCP, cujo voto António Costa estava habituado a dar por adquirido. Embora continue a indicar disponibilidade para negociar até ao último momento, é cada vez mais improvável que o BE venha a ter do Executivo respostas suficientes para mudar de posição.

Recuperando o tom carregado com que abordou desde início o tema, Marcelo Rebelo de Sousa voltou ontem a lembrar os "custos" e "problemas" que um chumbo acarretará. A dramatização e os apelos ao bom senso são uma forma de pressão sobre os partidos à Esquerda, mas de pouco valem para uma negociação séria. No jogo do passa-culpas, todos podem invocar os argumentos que mais lhes convêm. O Governo aponta as medidas aprovadas no SNS, nas leis laborais, no salário mínimo nacional. BE e PCP têm as mãos cheias de pedidos por satisfazer, das pensões à reposição dos 25 dias de férias.

Com todos os sinais das urnas e das sondagens a darem a Costa garantia de nova vitória, reforçada com a mensagem de vitimização e de "irresponsabilidade" dos antigos parceiros, o PS não tem medo de ir a votos. E à direita o PSD está em plena disputa interna, sem tempo para arrumar a casa e para delinear uma estratégia sólida para um embate difícil.

Até quarta-feira, tudo ainda pode acontecer. E mesmo um chumbo do OE pode dar origem a diferentes caminhos, embora o presidente da República já tenha demonstrado escolher o de dissolução do Parlamento. Não há nisso qualquer dano irreparável para o país. É apenas a democracia a funcionar, com os poderes devidamente distribuídos entre os vários órgãos de soberania. Se a palavra for devolvida aos portugueses, eles dirão nas urnas exatamente como leem todo este quadro político.

Diretora do "Jornal de Notícias"

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