Opinião

A magia e o lodo fora de jogo

A magia e o lodo fora de jogo

Uma impulsão de 1,41 metros e um golo marcado de bicicleta, num gesto perfeito em que o pé de Cristiano Ronaldo atingiu os 2,38 metros. Não é a matemática do lance que explica a maré de notícias sobre o polémico mas incontornável nome do futebol mundial: nada menos do que 23 160 artigos online, em apenas três dias, um pouco por todo o Mundo e sem contar com os milhares produzidos em Portugal.

As contas são apenas mais um dado a comprovar o momento único vivido pelo jogador na semana passada. Um momento de magia, que vale mais do que parece. Naqueles segundos rápidos em que a bola voa para o fundo da baliza de Buffon, e em que o estádio da Juventus emudece para logo a seguir se levantar a ovacionar o mago, é como se um lance bastasse para nos reconciliar com o futebol.

Já passaram vários dias, mas aquele golo em Turim ficará para a história. Como ficaram outros de Pelé, de Maradona, Cruyff, Rummenigge ou Bobby Charlton. Porque no fim de contas é isso que vale, a excelência dentro das quatro linhas. Como se de tempos a tempos fosse preciso um momento invulgar para lembrar que nada do que tem intoxicado o espaço público sobre a Liga portuguesa é futebol. Nem e-mails, nem lavagem de roupa suja nas redes sociais, nem presidentes a bradar contra jornalistas, contra adeptos, contra outros clubes ou contra os seus próprios jogadores.

O futebol sobrevive a casos de polícia, de política e de má educação e cabe-nos exigir que sejam tomadas medidas para que o lodo fique sempre fora de jogo. O futebol é talento, suor, festa rija nas bancadas. E trabalho, doses monumentais dele. Porque para chegar ao topo, um futebolista tem de treinar intensamente, cumprir horários que a maioria na sua idade não consegue respeitar, fazer sacrifícios e saber que mesmo assim terá de contar ainda com uma ponta de sorte.

A lição de Ronaldo (questões pessoais à parte) é a sua capacidade de trabalho. Treinou sempre obsessivamente, mesmo quando os colegas paravam. A comprovar que o talento não chega. Cultiva-se e dá trabalho. Será inadmissível permitirmos que a magia seja ofuscada pelo barulho daquilo que não é futebol. Dirigentes desportivos, políticos com poder para legislar, justiça no que for da sua esfera, adeptos na responsabilidade própria e na que devem exigir aos respetivos clubes: a tarefa é gigantesca e precisa de todos.

* Subdiretora

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