Opinião

As lágrimas e a arrogância

As lágrimas e a arrogância

Marta Temido está há longos meses debaixo dos holofotes, sob forte pressão mediática devido à gestão da pandemia. Este é o pior momento para se estar em qualquer governo e à frente da pasta da Saúde, com decisões para tomar a toda a hora e as inevitáveis críticas perante o que falha e sobretudo perante níveis de mortalidade que deixam o país com os piores números das últimas sete décadas.

Na cerimónia de aniversário do Instituto Ricardo Jorge, a ministra da Saúde cedeu à emoção e chorou quando elogiava o esforço contínuo dos especialistas daquele organismo. Repetidos à exaustão nas televisões e sites noticiosos, aqueles segundos de choro descontrolado confirmam que Marta Temido não se limitou a palavras de circunstâncias quando se referiu à mais-valia dos serviços públicos. E foi, naquele momento, uma cidadã igual a tantos de nós, cansados de uma pandemia que diariamente causa vítimas e nos mergulhou num estado de vertiginosa crise.

Não há nada de errado na aparente fragilidade de ceder à emoção. Nem o exercício do poder é frio e imune a tantas sensações que cada passo mal dado possa provocar. Como parece querer mostrar-se, ao contrário da colega de Governo, o ministro da Administração Interna. Que escreveu à viúva do cidadão ucraniano morto pelo SEF no aeroporto de Lisboa apenas quando o caso atingiu proporções de crise política. E que nunca assumiu com todas as letras a responsabilidade política pelo sucedido, pedindo desculpa pela tortura a que Ihor Homenyuk foi sujeito.

Tem razão Eduardo Cabrita, quando condena o facto de termos estado "distraídos" e "desatentos" com este caso, que deveria ter despertado o país desde o início. Mas nada lhe permite a arrogância de responder com ironia às críticas que lhe têm sido dirigidas. Ou de se considerar superior a quem quer que seja na defesa dos direitos humanos. Ocupar um cargo público significa estar sujeito a escrutínio, assumir as consequências dos erros de todos os que se movem na sua área de intervenção, saber que todos os dias a Imprensa, os comentadores e todos os cidadãos podem criticar a sua ação e inação. Se não consegue mostrar serenidade, humanismo e humildade perante um crime tão grave, Cabrita percebe bem menos de direitos humanos do que se gaba.

Diretora

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG