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Berardo e o copo meio cheio

Berardo e o copo meio cheio

É bastante mais popular criticar os políticos e particularmente os deputados, massa anónima de que se conhece muitas vezes pouco trabalho, do que elogiar os contributos úteis para o país. Mas se há área em que a atividade parlamentar se tem destacado é na investigação ao setor bancário, com sucessivas comissões de inquérito a resultarem em matéria remetida ao Ministério Público.

Particularmente exemplificativa disso foi a histórica audição de Joe Berardo, em maio de 2019, que gerou uma estupefação coletiva poucas vezes vista no país. Será difícil esquecer a teatral gargalhada que se seguiu às perguntas de Cecília Meireles sobre as condições em que deixaria "de mandar" na Fundação, ou a declaração de Mariana Mortágua quando foram destapados alguns dos esquemas para salvaguardar a coleção de arte e o património do visado: "Foi dado um golpe, portanto".

A investigação em que Joe Berardo é um dos visados começou em 2016, mas é inevitável acreditar que a audição parlamentar lhe deu um empurrão decisivo. Como noutras comissões de inquérito, designadamente a do caso BES, foi graças às amnésias seletivas e declarações arrogantes de banqueiros e empresários que o país começou a sobressaltar-se com a dimensão dos atos de má gestão e crimes cometidos ao longo dos anos.

A Polícia Judiciária está a investigar os 25 maiores devedores da Caixa Geral de Depósitos. O país espera que os próximos meses tragam mais pormenores sobre os créditos bancários e sobretudo capacidade para exigir a recuperação de bens e a indemnização por parte de gestores que possam ser responsabilizados. Joe Berardo é mais um exemplo de que não há intocáveis. Operação Marquês, BES ou Operação Lex, tocando poderosos em diferentes órgãos de poder, incluindo na magistratura, já nos tinham revelado isso. Para um país habituado a olhar para o copo meio vazio da morosidade e da ineficácia da Justiça, não é assim tão pouco.

*Diretora

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