Opinião

Cancro e coração: as mortes invisíveis

Cancro e coração: as mortes invisíveis

Já sabíamos que a covid não explica todo o excesso de mortalidade registado em 2020, que atingiu recordes nunca vistos desde os tempos da gripe espanhola, há um século.

Agora chega a análise das causas, hoje divulgada nas páginas deste jornal: cancro e doenças cardiovasculares estiveram na origem de 54% das mortes em excesso. Os cálculos são da Escola Nacional de Saúde Pública e mostram os efeitos do esmagamento dos hospitais pela pandemia e do medo que tem afastado as pessoas dos cuidados.

Nas doenças oncológicas, a baixa referenciação de novos casos pelos cuidados de saúde primários explica parte do problema. Já o medo contribui muito para o aumento de mortes por doença cardiovascular. Os doentes chegam ao hospital mais tarde e em pior situação clínica. E é no meio deste quadro, traçado ainda antes do confinamento e do agravamento da pressão sobre o SNS, que chega o despacho da ministra da Saúde que permite adiar cirurgias programadas, inclusivamente de doentes oncológicos com indicação para serem operados no tempo máximo de 45 dias.

Não é aceitável que olhemos para estes números sem discussão, como se fossem uma fatalidade. Nem é admissível que se continue a evitar o debate sobre o recurso ao setor privado, para aumentar os canais de resposta a quem não tem espaço no SNS. Marta Temido foi corajosa e coerente na prioridade absoluta dada ao setor público e nos investimentos feitos para o reforçar. Mas a lei oferece instrumentos que permitem envolver privados sem que isso represente qualquer cedência ideológica - tanto assim que a requisição civil já foi admitida pelo Governo como possibilidade.

Controlar a pandemia é uma condição essencial para baixarmos a mortalidade e aliviarmos a pressão sobre as unidades de saúde. Mas é preciso também controlar os danos colaterais. Ao mesmo tempo que se luta contra o vírus e não mais tarde, porque não há graus de importância distintos entre doentes covid e não-covid. Só porque se tornaram mais invisíveis e silenciosas, estas patologias não pararam de matar.

*Diretora

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