Opinião

Capeia. Diz que é tradição

Capeia. Diz que é tradição

As explicações sucedem-se, incluindo pela voz do próprio presidente da Câmara do Sabugal: foi um acidente. Não é suposto a capeia arraiana, uma técnica tauromáquica em que um grupo de pessoas enfrenta um touro com um forcão em madeira, causar a morte. Como aconteceu, sábado, no Soito, num acidente registado em vídeo que circulou pelas redes e jornais.

Sempre que imagens de brutalidade envolvendo touros surgem no espaço público, segue-se a inevitável troca de argumentos centrada numa palavra: tradição. Para a qual há pelo menos duas respostas. O que não falta é uma lista de tradições que morreram ou foram reinventadas ao longo do tempo, acompanhando mudanças culturais e civilizacionais. E também a discussão e a polémica em torno das touradas têm raízes fundas no tempo. Desengane-se quem julga que é uma moda suscitada pelo crescente apoio à causa da defesa dos animais. No início do século XIX, já o primeiro liberalismo português queria abolir as touradas.

Politicamente, contudo, o tema é incómodo. Depois das discussões que deram em nada na última legislatura, nomeadamente visando o fim dos apoios públicos a espetáculos tauromáquicos, quase nenhum partido aponta o tema expressamente no programa para as eleições de outubro. Exceto o PAN, claro, cujas bandeiras e bases de apoio não merecem qualquer dúvida.

Quando recentemente confrontado com a possibilidade de vir a precisar do PAN para formar governo, António Costa foi cauteloso e hábil como sempre. Nos concelhos em que a tourada faz parte da "identidade", isso "deve ser ressalvado". É fácil de perceber que a tauromaquia, que tantas discussões e paixões suscita, está para durar. Logo, os acidentes e imagens de brutalidade também. É a tradição. Intocável quando mete barretes, capas e cavaleiros. Ou meros forcões de madeira, protegidos como património coletivo. O património que mais nos desune coletivamente.

*Diretora-adjunta

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