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Engolir sapos

Após o jogo da seleção portuguesa nos quartos de final do Europeu, as redes dividiram-se entre meio mundo que fazia piadas sobre o cigano que tirou as meias aos polacos e o outro meio que se indignava com o que dizia ser discriminação mascarada de humor.

O racismo habita entre nós, como em qualquer outro lugar desta velha Europa tantas vezes cheia de si e incapaz de arranjar espaço para o outro. Não faltam exemplos de comunidades ciganas a viver sem condições, isoladas em guetos ou realojadas segundo projetos cheios de boas intenções, mas vazios de cuidado e conhecimento da sua cultura. Do mesmo modo que abundam os sapos à porta dos estabelecimentos comerciais, definição mais perfeita dos proprietários do que dos clientes indesejados que pretendem afastar.

As palavras têm peso. Cigano, preto, pobre, judeu, bicha, o que for. Têm tanto peso que nos devem suscitar preocupação quando as vemos usadas para separar, mas também quando temos tanto medo delas que as deixamos dividir. Pior do que usá-las com sentidos xenófobos, é policiar ao limite as palavras dos outros.

Foi Ronaldo a colocar o cigano, com expressões carinhosas como a do "puto Lelito", nas bocas do mundo. Como foi Renato Sanches, o miúdo-prodígio que nos entusiasma com a sua rebeldia, a levar a Musgueira aos jornais várias vezes na semana. Ainda bem que os temos na seleção. Ou que temos outro herói que não nasceu português e tantos consideraram que não devia ser nosso quando se naturalizou. Quaresma e Renato lembram--nos que ninguém se define ou limita pela cor, a raça, ou lugar onde nasceu, mas ainda assim essa marca às vezes precisa de ser evidenciada para que a diferença um dia deixe de o ser. Pepe mostra-nos que muitos nascemos portugueses, mas nem todos escolhemos tanto como ele sê-lo e trabalhar pelo lugar onde quis estar.

É só futebol, gritam entretanto os que acham que todo este entusiasmo aliena. É futebol, sim, mas é uma das melhores metáforas do que somos. Pequenos e ainda assim cheios de poder. Capazes de construir equipa a partir de tantas diferenças. Esquecidos de que depois da bola o mundo continua a girar, porque toda a perfeição parece contida naquele momento mágico em que se grita golo e se saboreia uma vitória.

Podem escrever-se tratados e fazer-se muito pela igualdade e pela tolerância. Mas não vejo melhor escola do que esta: um herói cigano a levantar um país em histeria, obrigando tanta gente que precisa a engolir sapos.

* SUBDIRETORA