Opinião

Equívoco ou desespero?

Equívoco ou desespero?

Caixões a arder, confrontos com a Polícia, centenas de pessoas em protesto, no Porto, contra o que dizem ser a morte do setor da restauração. As medidas restritivas nos concelhos de risco fizeram disparar a contestação e nem a promessa de um apoio específico para esta atividade amenizou as críticas. O Governo anunciou subsídios no valor de 20% das perdas de faturação, mas a própria fórmula de cálculo, tendo por base o rendimento médio nos fins de semana desde janeiro - com a maior parte do período afetado pela pandemia -, faz antever valores muito curtos para atenuar as dificuldades.

Hotelaria e restauração estão entre as áreas mais penalizadas por insolvências, que atingiram em setembro a expressão mais elevada em três anos. É de prever que os encerramentos continuem a aumentar, numa altura em que o país volta a ter de ficar em casa e em que, sem perspetivas de retoma, muitos empresários sentem cada vez mais dificuldades em suportar prejuízos acumulados.

No espaço de dez dias, realizaram-se três conselhos de ministros com anúncios de sucessivas medidas. E algumas comunicações foram feitas em tempo indevido (quem comunica algo tão relevante como um recolher obrigatório à meia-noite de sábado?) e com abertura para diferentes interpretações. Houve tentativa de abusos, claro, ainda por cima por parte de grupos empresariais sem legitimidade para alegar que têm a sobrevivência em risco, mas houve também muita dúvida legítima e muito desespero por parte de pequenos empresários.

"A culpa é toda minha. O mensageiro transmitiu mal a mensagem", afirmou o primeiro-ministro, num mea culpa mesclado de alguma ironia, em que foi igualmente disparando críticas a quem tenta procurar exceções e equívocos para contornar as normas. Os abusos têm de ser travados e sempre que necessário punidos. Mas quando a atividade económica agoniza e tanta gente perdeu o emprego ou se vê na iminência de ter de despedir, não basta clarificar a mensagem. É preciso ir mais longe e ver, em sede de Orçamento do Estado e de fundos comunitários extraordinários, que receitas vão ser aplicadas para curar as feridas de empresas e trabalhadores.

*Diretora-adjunta

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