Opinião

Há vida para lá dos 70

No Japão, o país com a maior percentagem de cidadãos acima de 80 anos, os média deram recentemente conta de um fenómeno inusitado. Pessoas nessa faixa etária cometem pequenos delitos, como roubos em lojas, para passar algum tempo na prisão onde, dizem, se sentem mais cuidados e acompanhados do que em liberdade.

Será um cenário extremo, mas não deixa de ser um sintoma dos desafios que o aumento da longevidade coloca. A vida alarga-se e é preciso pensar o que fazer para que esse tempo adicional seja de qualidade e não uma espera deprimida pela morte. E se nesta equação há respostas que dependem muito de medidas sociais e de redes familiares, há sempre escolhas que são da esfera pessoal.

É neste espaço de liberdade que deve ser enquadrada a questão da reforma obrigatória na Função Pública. O psiquiatra Daniel Sampaio ou o cardiologista Manuel Antunes são apenas dois exemplos de profissionais de excelência que se viram obrigados a deixar o Serviço Nacional de Saúde aos 70 anos. Podem trabalhar no setor privado. Mas não num hospital público.

Sabendo-se que o Governo prepara uma proposta que acaba com essa obrigatoriedade de sair, os sindicatos de imediato acenaram com o fantasma de se pretender, a médio prazo, aumentar a idade para a reforma. É baralhar assuntos distintos. Ninguém pretende reduzir direitos e defendê-los é um objetivo que só pode merecer amplo consenso. Mas o facto de haver uma norma, que em nada sai beliscada, não deve impedir as exceções.

Claro que se levanta a questão da necessidade de renovação geracional, mas por isso mesmo essas exceções só serão permitidas se os serviços assim entenderem. A proposta em discussão apenas abre uma porta que hoje está absolutamente fechada, até a profissionais de excelência com muito para dar à sociedade. Tão simples como isso.

*Subdiretora