Opinião

Barulho na casa de banho

Barulho na casa de banho

O mínimo que esperamos de um deputado é que seja cuidadoso e informado sobre as leis aprovadas no Parlamento e a sua aplicação.

Quando um eleito pega num despacho do Governo que dá cumprimento a uma lei emanada da Assembleia e, como aconteceu esta semana, o comenta deturpando factos e descontextualizando algumas das afirmações nele contidas, só podemos pensar que ou o ambiente de pré-campanha já começou a toldar os espíritos mais agitados, ou há quem faça do ruído e da criação de casos uma forma de estar na política.

Em termos práticos, o despacho limita-se a formalizar orientações para implantar soluções que algumas escolas já adotaram. Sublinhando que os transgéneros devem ter direito à sua intimidade, evitando situações que os expõem desnecessariamente. A questão da intimidade é, aliás, bastante mais ampla: basta ter filhos em idade escolar que não querem tomar banho na escola para perceber porquê.

Os alunos em processo de transição existem, por mais que continue a haver quem considere essencial manter o Mundo arrumado em azul e rosa. Não interessa quantos são ou qual o universo de escolas abrangido por esta discussão. Interessa que as dificuldades sejam ultrapassadas com bom senso e sobretudo com naturalidade, sem criar alarido onde ele só prejudica.

As redes propiciam estes fenómenos paradoxais. Por um lado assistimos à permanente hierarquização das coisas e à contestação da atenção dada aos temas, como se o despacho do Governo tivesse alguma interferência na resolução de outros problemas ditos "prioritários" das escolas. Por outro lado, dá-se amplitude ao que se diz ser coisa de minorias e cria-se uma avalancha de mal-entendidos à volta de factos falsos. E se fossem todos ler o despacho e o diploma que o motivou, antes de irem fazer barulho para o Facebook?

*Diretora-adjunta