Opinião

Conversa de elevador

Fotografamos termómetros quando a temperatura dispara, queixamo-nos do frio e do calor, recorremos ao tempo para desbloquear conversas.

Apesar de universal, encaramos a meteorologia como se de algo menor se tratasse. Políticos incluídos, sobretudo o Governo, entretido que anda a decidir quantos milhões de última hora distribuir por passes e carreiras desbloqueadas.

As reservas das albufeiras estão a níveis assustadoramente baixos e quem vive da agricultura sabe o estado em que estão os terrenos. Não é um incidente pontual nem uma circunstância deste ano. É uma tendência comprovada, com contas feitas e rigorosas. Desde 1950, a temperatura média em Portugal cresce ao ritmo de 0,2 graus Celsius por década. Quanto à precipitação, a diminuição é de 40 milímetros/década. A nível global, a temperatura sobe mais no Sul da Europa e a precipitação desce a um nível mais acentuado na Península Ibérica.

As secas vão tornar-se mais frequentes e é urgente repensar a gestão dos recursos hídricos. Apostamos de forma excessiva no regadio e temos uma total ausência de medidas para minimizar esse impacto. Portugal não aparece sequer nas estatísticas internacionais de reutilização de águas residuais para rega, porque essa prática é nula. Também não temos medidas para penalizar o consumo em período de seca e é improvável que venham a ser aplicadas em ano eleitoral.

Se há decisões que dependem de políticas públicas, há gestos que devem preocupar-nos a todos. O estilo de vida que levamos é confortável, mas incomportável para a saúde do planeta. Dos consumos energéticos ao que colocamos no prato. Olhar para a pegada ecológica do que comemos não é uma questão de moda. É um imperativo ditado por razões científicas. Estamos a destruir a nossa casa. O tempo, comecemos a consciencializar-nos, não é mera conversa de elevador.

*DIRETORA-ADJUNTA