Opinião

Em incêndios não há boas notícias

Em incêndios não há boas notícias

"A vila de Monchique vai com o caraças." A frase foi proferida por um jornalista amigo a banhos no Algarve, perante as imagens das chamas a lamberem a malha urbana. Uma reação exagerada, face à dimensão da vila e à concentração de meios de socorro para proteger a população. Ainda assim compreensível não apenas devido à dimensão do fogo - de consequências imprevisíveis à hora de fecho desta edição -, mas também tendo em conta o trauma social que 2017 nos deixou.

Os incêndios voltam a causar feridos graves e casas ardidas. E comportamentos de pânico que demonstram claramente duas coisas perigosas. Uma, é que não aprendemos o suficiente com os relatórios e estudos sobre as tragédias do ano passado quanto aos comportamentos mais corretos para autoproteção. Outra, que tendemos a não confiar na capacidade de resposta dos bombeiros e da Proteção Civil. E essa confiança vai demorar a ser recuperada.

Nas últimas semanas, ouviu-se várias vezes o ministro da Administração Interna e o secretário de Estado da Proteção Civil repetirem a mesma frase, como uma lição bem estudada. "Ontem, houve X incêndios. A boa notícia é que não foram notícia." A intenção política de minimizar a preocupação e acentuar a alegada capacidade de resposta percebe-se. As análises de quem anda no terreno e a realidade em dias quentes demonstram, contudo, que poucos motivos temos para tranquilidade.

Com fenómenos climáticos cada vez mais extremos, há investigadores que falam numa nova geração de incêndios, com propagação cada vez mais rápida e intensidades de calor nunca antes observadas. Fogos que se agigantam em florestas desordenadas e colocam questões de segurança pessoal muito sérias. Boas notícias, em matéria de incêndios, não existem. Temos demasiado caminho para fazer.

* SUBDIRETORA

ver mais vídeos