Opinião

Formigas sem medalha

Olhando para a medalha solitária de Telma Monteiro, muitos críticos dirão que esta edição dos Jogos Olímpicos foi uma desgraça para Portugal. Se desviarmos o olhar do pódio para os resultados por pontos, no Rio tivemos a segunda melhor prestação de sempre: 41 pontos, menos três do que em Atenas. Além dos números, há outros sinais positivos. Desde a diversidade de modalidades em que a comitiva obteve diplomas (sete no total), até ao alto nível atingido por atletas que bateram recordes e conseguiram superar-se.

Se nos distanciarmos ainda mais da ditadura das medalhas, vemos mais exemplos de prestações que surpreendem em modalidades nas quais não temos qualquer tradição ou nível competitivo. A cavaleira Luciana Diniz foi nona classificada. E Alexis Santos, que chegou a duas meias-finais, tornou-se o melhor nadador português dos últimos 28 anos.

Não há problema nenhum em ter uma ambição ilimitada. Mas não ficará mal aos portugueses reconhecer que os recursos financeiros atribuídos às federações são bastante limitados e condicionam as condições de treino dos atletas. Só Telma Monteiro conseguirá o nível um de financiamento, recebendo 1375 euros líquidos mensais. Muitos dos rostos a quem de quatro em quatro anos exigimos tanto treinam em condições difíceis, estudando e trabalhando ao mesmo tempo. E até o desporto escolar, por onde numa fase inicial poderia passar algum apoio ao desporto nas camadas jovens, viu as verbas secarem nos últimos anos.

A falta de investimento paga-se. Mas não temos apenas um problema de decisões orçamentais ou de políticas públicas. É um problema cultural. Não apenas porque durante a maior parte do tempo não acarinhamos minimamente a esmagadora maioria das modalidades, nem fazemos ideia das condições difíceis em que tantos treinam.

É um problema cultural porque fugimos a sete pés do risco. Da derrota. Quantos pais não inscrevem os filhos em torneios amigáveis porque lhes custa vê-los frustrados quando não ganham nada? E no entanto a vida é isso: a capacidade de encarar a derrota como parte do processo de aprendizagem.

Só quem ganha medalhas escreve o seu nome na história. Mas não haveria campeões se não houvesse companheiros de treino a lutar ao seu lado. A esforçar-se sem perspetiva de alguma vez estar no pódio. A fazer trabalho de formiga que tantas vezes abre espaço para deixar passar os melhores. Enquanto não soubermos olhar além dos louros, seremos incapazes de criar uma cultura que valoriza mais o caminho do que a meta.

* SUBDIRETORA