Opinião

Impostos e muros

O voto de quem paga mais impostos deve contar mais? A pergunta assusta de tão perigosa, mas chegou a estar enunciada entre os tópicos de um evento para estudantes de um colégio em Lisboa, entretanto reformulado face às críticas públicas.

A mera sugestão contida na pergunta deveria arrepiar quem a incluiu na divulgação do evento e denota total incapacidade de perceber os princípios de justiça social inerentes ao pagamento de impostos.

Arranca hoje a operação de entrega das declarações de IRS e é óbvia a carga negativa com que a encaramos. Em média, trabalhamos 163 dias só para pagar impostos. É fácil, por isso, procurar argumentos para os diabolizar. São excessivos e mal geridos pelos sucessivos decisores políticos. É injusta a forma como o esforço é distribuído entre a população. É inadmissível a permissividade com que se encaram offshores e se convive com a evasão fiscal.

É tudo verdade, mas é igualmente certo que a relação com os impostos tem tanto de político e ideológico como de compromisso individual. A primeira parte da equação resolve-se nas urnas e na responsabilização de quem gere os cofres públicos e traça as políticas fiscais. A segunda define-nos como cidadãos com sentido (ou não) do dever comum.

À conta dos excessos de Donald Trump e da incapacidade que a Europa tem demonstrado no acolhimento de imigrantes, tem-se falado muito de muros. Mas a intolerância tem muitas formas, nem sempre evidentes nem físicas ou territoriais. Erguemos muros raciais, de diferenças de género, de clivagem na ideologia política. E, mais impercetíveis ainda, muros com que procuramos proteger o nosso dinheiro, o nosso conforto e o nosso individualismo. Podemos apontar desculpas esfarrapadas para nos justificarmos, mas todas as variáveis dos muros acabam por nos afastar dos outros. Só nos fazem mais pequeninos.

*Diretora-adjunta

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