Opinião

Nem tolos, nem heróis

Nem tolos, nem heróis

Nas redes sociais não faltam reações emocionais e comentários desajustados da realidade, sendo frequente lerem-se opiniões baseadas em títulos e que omitem o conteúdo das notícias. Ontem, assim que surgiram partilhas do acidente que vitimou dois polícias durante uma perseguição policial, na Bobadela, leram-se comentários como "paz às suas almas não muito iluminadas" e outras alusões menos simpáticas ao facto de se terem deixado surpreender por um comboio Intercidades.

Que essa precipitação e reatividade surjam em ambientes informais, não surpreende. O que já não será tão normal é que a presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, reaja com idêntico (embora contrário) exagero na manifestação de pesar perante o sucedido. "Morreram como heróis por todos nós", argumentou Assunção Esteves em nota enviada à Comunicação Social. "Deixam-nos uma memória de abnegação, um exemplo de entrega sem limite." Sem desvalorizar o empenho com que os dois agentes cumpriram o seu dever, dramatizar a este nível o seu heroísmo faz do episódio uma leitura que dificilmente os dados disponíveis permitem.

É verdade que diariamente milhares de elementos das forças de segurança arriscam a vida numa profissão mal paga e tantas vezes desvalorizada. É igualmente verdade que os limites legais os deixam frequentemente desprotegidos e numa luta desequilibrada com os autores de crimes. Mas não é menos verdade que neste caso não se tratou sequer de falta de meios, de brutalidade dos criminosos ou de qualquer outro fator que tornasse particularmente vulnerável a posição dos polícias. Foi um acidente, que apenas quem esteve no local saberá avaliar devidamente.

As posições que mantemos em matérias de segurança tendem a ser extremadas. Há quem pense que os polícias são vítimas nunca devidamente reconhecidas, que deveriam ter mais poder sobre os infratores. E há quem tenda a achar que toda a autoridade é abusiva e se esforce por encontrar falhas e motivos de crítica em quem usa uma farda. A verdade está algures no centro e um acidente como o de ontem deve servir não para olharmos a situação em concreto, porventura acaso do infortúnio e da dedicação misturados, mas para voltarmos a discutir que meios e que formação queremos dar às nossas forças.