A abrir

Nómadas na escola

"É todos os anos assim." O desabafo é dito em tom conformado, entre dois encarregados de educação, como se a epopeia do início de cada ano escolar fosse uma inevitabilidade. É a demora das escolas em anunciar a data exata de arranque das aulas, a falta de auxiliares que compromete a segurança nos recintos, a complexa operação de colocação de professores, tudo areias na engrenagem que tornam o arranque da máquina lento e algo doloroso.

Nas vésperas do primeiro dia de aulas, dizem as contas da Fenprof que estão por preencher mais de cinco mil horários. Mesmo tendo conseguido antecipar a colocação inicial, o Ministério da Educação não evita os furos no horário de milhares de alunos e o clima de incerteza com que tantos professores vivem esta altura do ano.

O problema do desemprego no ensino é complexo e não há uma varinha de condão para o resolver. Misturam-se fatores como a contínua diminuição do número de alunos, a formação de professores acima das necessidades e o inevitável desfasamento entre a residência dos candidatos e as vagas disponíveis. A resposta para a agitação que sempre envolve as colocações parece quase impossível de encontrar.

A instabilidade na vida de tantos docentes que passam anos e anos a correr o país, de mala às costas, não é apenas uma questão laboral. Tem efeitos invisíveis na qualidade do ensino. Alguém acredita que a motivação de um professor colocado a 300 quilómetros de casa, muitas vezes afastado do resto da família, é a mesma de outro colega que ensina à porta de casa? Alguém duvida que perante as dificuldades a tentação de meter baixa ou de faltar será maior do que se estivesse num lugar estável? No último ano, o JN tentou repetidas vezes obter dados estatísticos sobre faltas dos professores. O Governo nunca os disponibilizou. Talvez porque analisá-los revele muitas dessas fragilidades.

Além do que acontece dentro da sala, nos tempos curriculares obrigatórios, a escola é uma soma de iniciativas que resultam tanto melhor quanto maior for a disponibilidade dos professores. Tal como a ligação à comunidade. Ou a capacidade de envolver as famílias. Ou ainda de trabalhar em rede com as entidades locais. Tudo tarefas que exigem estabilidade.

Se há pasta em que o Governo não pode poupar, é na educação. Uma área sensível, em que colher frutos leva muito tempo. E tempo, já se sabe, é coisa de que os políticos não gostam de dispor.

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