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O Mundo a cor-de-rosa

Na ressaca do debate à volta dos livros para menino e para menina tropecei em notícias de jornais britânicos dando conta da discussão entre dois políticos escoceses. Tudo porque, no primeiro dia de escola da filha, o recém-eleito deputado conservador Paul Masterton publicou uma fotografia que Moira Shemilt, do Partido Nacional Escocês, considerou estar carregada de estereótipos de género.

Na fotografia do pai babado vê-se a filha de costas, com um casaco cor-de-rosa e uma mochila em tons amarelo e branco, salpicada de ovelhas. Em primeiro plano surge o filho, com uma camisola carregada de carrinhos amarelos, verdes e vermelhos. "Cor-de-rosa e ovelhas para meninas. Coisas de camiões para meninos", reagiu criticamente Moira Shemilt no Twitter.

É inegável que associar o cor-de-rosa às meninas é limitado e estereotipado. Mas não deixa de ser igualmente incorreto presumir, baseando-se no simples uso de uma cor, que os pais promovem o estereótipo. E esse é o erro frequente em que estamos a cair. Uma coisa é promover a igualdade e a liberdade total quanto aos gostos, escolhas e percursos de meninos e meninas. Outra, bastante diferente, é considerar que esse caminho implica abolir diferenças (incluindo de gosto) e roubar o rosa às meninas.

O objetivo da luta pela igualdade é adicionar oportunidades a ambos os sexos, não limitá-las ou subtraí-las. Significa que homens e mulheres devem ter salário igual para tarefa igual, devem ter igualdade de acesso a lugares de chefia, devem ter o mesmo direito de andar na rua em segurança a qualquer hora da noite, devem exprimir-se livremente sem obstáculos nem preconceitos. Mas essa liberdade de escolher o que querem ser abre-lhes portas, não as deve fechar. Se um jovem, ao crescer, livremente escolher dedicar-se à família e abdicar da carreira, essa escolha é tão válida como a inversa - e vale tanto para um homem como para uma mulher.

No nosso desejo de fazermos caminho, acontece esquecermo-nos de que as conquistas são inclusivas e que também é preconceito julgar as opções ditas tradicionais sem conhecimento de causa. Acredito que as crianças de hoje terão uma tarefa facilitada. Já não se irão espantar com conquistas que hoje são notícia, mas deixarão de o ser à medida que forem simplesmente normais. Elas vão crescer cada vez mais conscientes da igualdade. Nós, adultos, é que às vezes ainda precisamos de crescer mais um bocadinho.