Opinião

Remédios para a morte

Remédios para a morte

Francesco tinha sete anos. Segundo a família, não tomava antibióticos desde os três. Há duas semanas, começou a queixar-se de dores de ouvidos. Os pais fizeram o mesmo que em otites anteriores: recorreram a um homeopata, que assegurou não ser necessário tratamento hospitalar. Silenciosamente, a infeção foi alastrando. Francesco morreu no sábado.

Segundo relatam os jornais italianos, a polícia já esteve no consultório do homeopata e em casa dos pais, que podem ser acusados de homicídio. Mas os pormenores destes 15 dias de sofrimento para Francesco estão ainda rodeados de incerteza e especulação. As autoridades terão de avaliar factos. Não os dedos de culpa furiosamente apontados aos pais. Ou a Massimiliano Mecozzi, o homeopata.

Sucessivos estudos têm procurado descredibilizar a homeopatia, com os mais crus a concluir que os comprimidos se resumem a açúcar e água. Universidades espanholas suspenderam recentemente pós-graduações e a comissão federal norte-americana que promove a proteção do consumidor proibiu, há cerca de meio ano, que os produtos homeopáticos fossem anunciados como medicamentos.

A questão levantará seguramente polémica, dado o elevado número de defensores desta e de outras medicinas alternativas. Aliás, convém não esquecer que recentemente foi legislado e aberta a porta, em Portugal, ao licenciamento das terapêuticas não convencionais, precisamente para permitir a fiscalização e reconhecer os benefícios de algumas destas práticas.

A homeopatia não é o vilão do caso de Francesco. O problema está na recusa em aceitar as respostas da medicina. Neste e noutros casos em que, seja por razões filosóficas ou religiosas, há quem seja intransigente na desconfiança relativamente a fármacos desenvolvidos após anos e anos de trabalho e milhões de euros de investimento.

Por muito que haja correntes que veem em tudo conspirações da indústria farmacêutica, as teorias ou mitos não chegam para determinar decisões de vida e de morte. É perigoso, para não dizer criminoso, ignorar conquistas que demoraram séculos. É perigoso, para não dizer absurdo, retroceder no combate à doença por meras crenças sem fundamento.

Francesco, como outras crianças e jovens a quem são recusados tratamentos por medo ou por ignorância, poderia estar vivo. É desse facto, tão evidente e doloroso, que todos devemos lembrar-nos de cada vez que a ciência for questionada por meros impulsos naturalistas.

* SUBDIRETORA