Opinião

Vou à terra

Em miúda, incomodava-me ouvir os meus primos ou tios comentarem que tinham ido à terra. Caramba!, gracejava levemente irritada, na Terra não estamos todos?

Anos mais tarde percebi o sentido profundo desta expressão quando ouvi uma colega da faculdade, nascida e criada na capital, lamentar não ter terra onde ir. "Lisboa não é terra de ninguém", dizia.

Vai-se à terra como a um lugar inicial. À interioridade, à profundidade, ao pedaço que nunca deixa de ser parte de nós, mesmo quando a vida nos empurra ou nos convida para outros lugares. Vai-se porque o caminho tem dois sentidos e a estrada que leva é a mesma que faz regressar.

Para a generalidade dos políticos, a estrada é sempre inversa. Eles até podem ter terra, mas esquecem-se quando aterram em São Bento e no Terreiro do Paço. Vão à terra quando há tragédias ou quando é tempo de semear promessas. Até podem ir instalar secretarias de Estado politicamente simbólicas na pacata cidade de Castelo Branco. Mas na hora da verdade, quando é preciso olhar para o país, a vista é curta.

António Costa bem pode assegurar que está preocupado com o território e tecer louvores à descentralização. Na reta final da legislatura, tudo espremido sabe a muito pouco. E, em plena crise de combustíveis, ter limitado a requisição civil para os serviços mínimos às áreas de Lisboa e Porto não foi um erro. Foi um gesto natural em quem assume que os distritos que elegem mais de um terço dos deputados são o umbigo do país.

O Governo acordou tarde e demorou a perceber o alcance do pré-aviso de greve. Foi, como em todos os momentos de crise da legislatura, reativo. Mas pior ainda é perceber que apenas quando bombardeado por autarcas e pressionado por Marcelo Rebelo de Sousa se lembrou que o país é pequeno mas nem tanto. Isso, para um Governo que assistiu como nenhum outro ao preço pago pelo abandono do interior, é verdadeiramente trágico.

*Diretora-Adjunta